Ressuscitação


Primeira parte
Adilson Nascimento


Segunda parte - Sérgio Timerman
a) Prevalência
b) Novas Normas de Ressuscitação
c) Uso do desfibrilador


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Dr. Sérgio Timerman
é médico cardiologista, diretor do Departamento de Ressuscitação e Centro de Treinamento em Emergências do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo.

Adilson do Nascimento, ex-jogador de basquete da seleção brasileira, participou de três olimpíadas, quatro campeonatos mundiais e vários campeonatos sul-americanos. Jogando numa equipe de veteranos, teve uma parada cardíaca na quadra do clube Paulistano.

Primeira parte - Adilson Nascimento

Drauzio Quando você começou a praticar basquete?
Adilson Nascimento – Com 15, 16 anos, durante minha vida escolar. Depois, entrei no Corinthians e, aos 19 anos, fui convocado para a seleção brasileira. Durante 13 anos, eu me dediquei à carreira de atleta.

DrauzioQuantas horas por semana você treinava naquela época?
Adilson Nascimento – Até os 20, 21 anos, treinava três vezes por semana. Depois, o treino passou a ser diário e, em algumas ocasiões, chegamos a treinar duas vezes no mesmo dia.

Drauzio Quando você parou de jogar basquete, deixou também de praticar outras atividades físicas?
Adilson Nascimento – Esse foi o meu erro: parei de vez. Depois de 30 anos dentro das quadras, assumi funções administrativas, vieram os convites para almoços e jantares e meus hábitos alimentares mudaram completamente. Com isso, uma série de problemas de saúde foi se instalando sem que eu percebesse.

DrauzioNos negros, a incidência de hipertensão arterial é maior do que nos brancos. Você tinha pressão alta?
Adilson Nascimento - Na época em que era atleta, minha pressão arterial era 11x7, 12x8. A mudança dos hábitos alimentares associada ao estresse e à correria próprios do mundo dos negócios, e mais o histórico familiar de hipertensão foram fatores importantes para que os níveis da minha pressão arterial aumentassem.

Drauzio Você estava tomando medicamentos para controlar a pressão?
Adilson Nascimento – Vinha tomando medicamentos. Em determinado momento, porém, fui negligente e cometi o absurdo de suspender o uso desses remédios, porque achava que não eram mais necessários.

DrauzioO que aconteceu exatamente no dia 6 de abril de 2005?
Adilson Nascimento – Existe um campeonato de veteranos que reúne todas as pessoas que    jogaram ou gostam de jogar basquete. É uma festa! No dia 6 de abril de 2005, me telefonaram para avisar que havia um jogo marcado para aquele dia. Como jogo em duas categorias, eu já tinha jogado no dia anterior. Por isso, minha primeira reação foi dizer que veterano não tem pernas para jogar dois dias seguidos. “Se você não vier, vai dar W.O.”, foi o que me responderam. Diante desse argumento, decidi ir para São Paulo. O jogo era no clube Paulistano. Lembro que entrei no clube, o juvenil de basquete estava treinando e fui ver o treino do time de pólo-aquático. Daí em diante, só me lembro de ter acordado dois dias depois na UTI do Incor. A pane no coração ocorreu durante o jogo, mas tudo o que sei a respeito ouvi dos meus colegas.  

Drauzio Você já estava jogando quando teve o problema?
Adilson Nascimento – O que aconteceu comigo, um atleta, nesse dia, pode acontecer com qualquer outra pessoa. Eu estava jogando e dizem que já tinha marcado dez pontos naquela partida. Parece que vinha batendo a bola e caí desmaiado. Para minha felicidade (há pessoas que chamam isso de sorte ou atribuem o fato à providência divina), um professor de “fitness”, o Alexandre, estava assistindo ao jogo e prestou o primeiro socorro. Em menos de três minutos, apareceu alguém com o desfribilador e eu voltei a respirar.

Drauzio – Quando você acordou?
Adilson Nascimento – Acordei na UTI do Incor e achei que estava sonhando. Vi, então, os aparelhos e minha esposa ao lado de dois amigos mais próximos. Fechei os olhos novamente e concluí que algo muito grave tinha acontecido comigo.

Drauzio Na verdade, você tinha morrido quando caiu na quadra.
Adilson Nascimento – Literalmente, morri naquele momento. Não fosse ter sido ressuscitado imediatamente pelo professor Alexandre no clube Paulistano, que espalhou sete ou oito desfibriladores em lugares estratégicos e treinou funcionários e professores para usá-los, não teria chegado com vida no Incor, um hospital de padrão internacional, onde fiquei sob os cuidados do Dr. Sergio Timerman e o Dr. Carlos Eid.
Nem todos os clubes estão preparados para enfrentar situações como a que atravessei no Clube Paulistano. Muitos clubes de futebol, estádios esportivos e mesmo shopping centers não têm desfibriladores, um aparelho que salva vidas.

Drauzio O desfibrilador dá uma descarga elétrica no coração para fazê-lo retomar o ritmo. No seu caso, a que você atribui a necessidade de usá-lo?
Adilson Nascimento – Eu vinha de uma vida estressada, com alimentação inadequada, tinha histórico familiar de pressão arterial elevada, era hipertenso e tinha deixado de tomar remédios. Era portador de muitos os fatores de risco para um acidente cardíaco.

Drauzio O que mudou na sua vida entre o episódio de cair morto na quadra e dar esta entrevista agora?
Adilson Nascimento – Em abril de 2006, completo um ano de vida. Ninguém passa por uma experiência dessas sem mudanças. Passei a dar mais valor à vida agora e aumentou o reconhecimento que tenho por outras pessoas. Hoje, levantei uma bandeira. Com o meu testemunho, pretendo levar informação para que outras vidas sejam poupadas.