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Dr. Márcio Mancini é médico endocrinologista, membro do Departamento de Endocrinologia do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo e da ABESO (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade).

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Drauzio Muitas prescrições de medicamentos para emagrecer são formulações que associam várias substâncias: femproporex para reduzir o apetite, furosemida que é um diurético, remédios para ativar o funcionamento da tireóide e para aumentar a saciedade, laxantes. Como a medicina vê essas fórmulas?
Márcio Mancini – Às vezes, essas fórmulas incluem propranolol, porque a pessoa pode ter taquicardia, e potássio para repor o que perde por estar tomando diurético. Na realidade, há formulações que chegam a associar 15, 20, 30 itens diferentes.
A medicina é totalmente contrária a esse tipo de abordagem e a Anvisa proíbe a associação de medicamentos numa única cápsula. Infelizmente, muitos médicos descobriram uma estratégia que permite driblar esse regulamento: fazem três ou quatro receitas diferentes, embora a prescrição simultânea também seja proibida pela Anvisa.

Drauzio Você poderia explicar a ação das substâncias que compõem essas fórmulas?
Márcio Mancini - Na verdade, nem se conhece direito o que a associação desses medicamentos pode provocar no organismo. O furosemida, por exemplo, é indicado para pessoas com uma síndrome que justifique o inchaço, e a perda de peso que acarreta é falsa, porque o indivíduo perde água e não gordura. O hormônio da tireóide pode aumentar a queima de massa gorda, mas também queima massa magra, músculos e, a longo prazo, pode levar à perda de massa óssea. O exame de densitometria de mulheres que tomaram hormônios para tireóide durante anos para emagrecer revelou perda óssea muito maior do que o aceitável para a idade. Além disso, associação de hormônio para tireóide e anorexígenos aumenta a probabilidade da ocorrência de taquicardia e arritmias cardíacas. O hormônio para tireóide só deve ser prescrito nos casos de hipotireoidismo, via de regra, sob a forma de medicamentos fabricados por laboratórios e vendidos nas drogarias.
Resumindo: não se considera boa prática da medicina a associação simultânea desses medicamentos, assim como não é boa prática associar dois anorexígenos, mesmo que tomados em horários diferentes, o femproporex à tarde e a anfepramona de manhã, por exemplo.

DrauzioUm conceito popular atribui o ganho de peso à tireóide preguiçosa, que funciona devagar, embora raramente a obesidade possa ser explicada pelo mau funcionamento da tireóide. De onde vem essa noção?
Márcio Mancini – Um dos sintomas do hipotireoidismo é o ganho de peso que pode ser explicado pela formação de um edema característico dessa doença, o mixedema. Em geral, o ganho se limita a 3kg, 4kg, 5kg no máximo e reverte com o tratamento.
Como o endocrinologista trata de pessoas com problemas na tireóide e de pessoas que querem emagrecer, antigamente, o hormônio da tireóide era utilizado nos dois casos. Para ter uma idéia, quando fiz residência médica, há quinze anos, obesidade não era um tema discutido em aula e o tratamento era feito com formulações que incluíam o hormônio da tireóide. Daquela época para cá, essa área da medicina desenvolveu muito, inúmeras teses científicas foram publicadas e o hormônio da tireóide foi retirado das prescrições porque podia causar mais mal do que bem ao indivíduo com funcionamento normal da tireóide, que queria emagrecer.

Drauzio Tive a oportunidade de ver dois ou três casos de meninas que, na ânsia de emagrecer, tomaram formulações em doses elevadas, não sei se por dependência química ou por vontade de perder mais peso. Esse pacote de medicamentos induziu um hipertireoidismo gravíssimo que levou à perda de musculatura e as deixou esqueléticas. Como você vê, a longo prazo, as conseqüências de tomar tantos remédios ao mesmo tempo?
Márcio Mancini – É uma coisa extremamente perigosa que coloca em risco a vida da pessoa. Muitas vezes, recebemos pacientes com nível de potássio baixo no sangue, com taquicardia grave e meninas com IMC inferior a 18,5 que querem tomar essas formulações para perderem mais peso ainda.

Drauzio - E pensar que, na maioria das vezes, essas formulações são prescritas por médicos...
Márcio Mancini – São prescritas por médicos, muitas vezes, depois de uma avaliação superficial do paciente. Temos notícia de clínicas populares em que os médicos atendem as pessoas em poucos minutos, não levantam direito seu histórico, não as examinam corretamente, não pedem exames complementares e emitem receitas sem nenhum critério para a escolha das substâncias que compõem as fórmulas. O paciente não sabe que está tomando vários medicamentos numa única cápsula, nem quais são seus efeitos colaterais, nem por quanto tempo o tratamento deve ser mantido.

Drauzio Por quanto tempo o tratamento para a obesidade com medicamentos escolhidos segundo critérios científicos pode ser mantido?
Márcio Mancini – Esse ainda é um tema controverso, motivo de muita discussão nos congressos internacionais. Na bula dos anorexígenos, está escrito que o medicamento deve ser tomado por poucas semanas, no máximo, por três meses. A obesidade, porém, é uma doença como diabetes e hipertensão, que recidiva se o tratamento for suspenso, porque o paciente não consegue manter os mesmos hábitos sem os medicamentos. Por isso, é intensa a busca de agentes farmacológicos que possam ser utilizados por longos períodos e ajudem a manter o novo peso (perda de 10% é considerada muito útil para a saúde como um todo).
Dentre os remédios para emagrecer, apenas têm acompanhamento de uso contínuo mostrando segurança a sibutramina (dois anos) e o orlistat (quatro anos). Se o paciente não se adaptou bem a esses dois medicamentos, mas teve boa resposta ao fremporex ou ao mazindol, pode utilizá-los por mais tempo desde que seja acompanhado de perto pelo médico e não tenha manifestado efeitos colaterais.
Portanto, a tendência atual é indicar o tratamento com uma droga única (e não com associação de medicamentos) por um período maior de tempo, como acontece nos casos de hipertensão, diabetes ou colesterol elevado e para evitar que o paciente recupere o peso, desde que o acompanhamento médico não seja interrompido.

Site
www.abeso.org.br