Testes preditivos

Drauzio – Existem
alguns cuidados que devem ser tomados em relação aos
testes genéticos?
Mayana Zatz – Existe uma preocupação
ética com o que chamamos de testes preditivos. Determinar numa
pessoa jovem, normal e saudável, a existência de uma
mutação que pode provocar uma doença depois dos
40 ou 50 anos sem que nada possa ser feito para modificar o prognóstico
é absolutamente desaconselhado. Por isso, não testamos
crianças assintomáticas para doenças de manifestação
tardia quando não há tratamento nem prevenção
possível.
Muitas vezes, pais angustiados com doenças genéticas
na família para as quais não há tratamento querem
saber se os filhos têm a mutação. Não fazemos
esse teste porque não traz benefício nenhum. Todos nós
corremos o risco de ter a doença de Alzheimer, por exemplo.
Se eu souber que tenho predisposição genética,
cada pequeno esquecimento vai representar para mim um sintoma da doença.
Drauzio – Você gostaria de saber
se tem um gene que aumenta a probabilidade de desenvolver câncer
de mama, por exemplo?
Mayana Zatz – Gostaria, porque é uma
doença tratável e que pode ser prevenida, mas não
gostaria de saber se tenho genes para doenças que não
têm tratamento. Muitos laboratórios oferecem testes para
praticamente tudo. É importante, porém, que antes de
submeter-se a esses testes, a pessoa saiba por que está sendo
testada e qual o beneficio que terá se o resultado for positivo.
Você levantou um ponto muito importante em relação
ao câncer de mama. As formas hereditárias de câncer
de mama restringem-se a cerca de 10% dos casos. No entanto, uma em
cada oito ou nove mulheres normais corre o risco de desenvolver essa
doença no decorrer da vida.
Muitos laboratórios oferecem testes para avaliar se existe
propensão hereditária para o câncer de mama, mas
mesmo que não ela não seja detectada, o risco de manifestar
o problema continua praticamente o mesmo e a mulher não pode
abandonar o controle preventivo a doença.
Portanto, é importante as pessoas entenderem que alguns testes
preditivos podem ajudar muito pouco, enquanto outros realmente são
de grande utilidade. Em ambos os casos, a pergunta é o que
a pessoa pode fazer com essa informação. Ela vai trazer-lhe
algum benefício importante?
Drauzio – Por outro lado, trata-se de uma
informação de caráter sigiloso...
Mayana Zatz – Essa é outra preocupação,
especialmente no que se refere aos planos de saúde, que obviamente
estariam muito interessados em conhecer os riscos de cada conveniado.
Essa preocupação tem fundamento porque não depende
do indivíduo aceitar ou não fazer um teste de DNA. Seu
DNA está em todo lugar, na xícara de café, no
fio de cabelo que cai e qualquer um pode valer-se disso para estudar
os genes que predispõem a doenças que possam representar
alto custo para as seguradoras, por exemplo, ou interessar a alguém
que faça mau uso da informação.