Medicina preventiva

Drauzio – Com
a medicina preventiva, um dos orgulhos do século XX, foi possível
quase duplicar a expectativa de vida ao nascer. No entanto, ela é
ainda muito primitiva. Na verdade, estamos na fase da engenharia sanitária,
pois lutamos por saneamento básico, água potável
distribuída com fartura, alimentação suficiente
e adequada. A medicina a que você se refere faz pensar que,
no futuro, será possível moldá-la individualmente,
segundo as necessidades de cada pessoa.
Mayana Zatz – Primeiro é importante
lembrar que quanto mais se resolvem os problemas de saneamento básico,
por exemplo, mais importantes se tornam as doenças genéticas.
Para ter uma idéia, no início do século passado,
nos Estados Unidos, de cada mil crianças que nasciam 150 morriam
no primeiro ano de vida e dessas apenas cinco por causas genéticas,
o que correspondia a apenas 3% das causas de morte. Hoje, a cada mil
crianças que nascem naquele país, morrem nove no primeiro
ano de vida, cinco das quais por causas genéticas, ou seja,
as causas genéticas são responsáveis por 50%
das mortes no primeiro ano de vida. Ainda considerando os dados do
Primeiro Mundo, as causas genéticas respondem por um terço
das internações em hospitais pediátricos.
Isso indica que quanto mais se resolvem os problemas sociais, mais
as doenças genéticas têm importância e a
medicina do futuro obrigatoriamente terá de voltar-se para
essas doenças, o que irá provocar impacto muito grande
na área farmacogenômica, ou seja, na área que
estuda a resposta individual das pessoas às drogas.
Atualmente, o médico prescreve um remédio e observa
seu efeito (bom, adverso ou nenhum) naquele paciente, e todas as bulas
enfatizam as possíveis reações aos medicamentos.
Na verdade, toda a vez que toma um remédio, a pessoa está
sendo uma cobaia porque sua resposta dependerá dos genes que
a constituem. No futuro, espera-se que em vez de prescrever um remédio
para ver o que acontece, o médico possa estudar qual deles
é o mais adequado para o organismo de determinado indivíduo.
Drauzio – Existe uma discussão enorme
em relação às drogas usadas no tratamento da
hipertensão, uma doença mais freqüente entre os
negros do que entre os brancos e que, portanto, exigiria medicação
específica porque os dois grupos étnicos têm exigências
e respostas diferentes.
Mayana Zatz – O Projeto Genoma mostrou que
não existem grandes diferenças entre os grupos étnicos.
Somos todos igualmente diferentes. No entanto, em relação
à resposta a drogas, é importante considerar que cada
grupo étnico pode ter uma resposta diferente.
Nós estudamos, por exemplo, um gene que transporta serotonina
no cérebro. A serotonina é um neurotransmissor que controla
uma série de emoções e está também
associada a algumas doenças psiquiátricas. Comparando
nossa população com a população japonesa,
observamos que na população brasileira é mais
freqüente o alelo longo do gene, aquele que transporta mais rápido
a substância, enquanto na japonesa predomina o alelo curto.
Portanto, se for criado um remédio para atuar no transporte
da serotonina, obviamente não poderá ser o mesmo para
brasileiros e japoneses.
Isso que estamos começando a aprender agora, no futuro vai
ser uma regra de ouro, pois ninguém vai tomar um remédio
sem testar seus genes a fim de descobrir qual o medicamento mais adequado
para seu organismo.