Neuralgia do trigêmeo/dor de dente

Drauzio – Uma das dores
mais terríveis que o ser humano relata é a neuralgia
do trigêmeo que, em geral, dura pouco, mas vem com força
máxima. Não só os leigos a confundem com dor
de dente; há profissionais que também confundem. Como
se explica isso?
José Tadeu – Esse é um tema importante,
inclusive sob o ponto de vista de saúde pública. Comparada
com a dor de dente, a prevalência da neuralgia do trigêmeo
não é grande. Acontece que dada a intensidade da dor
e o fato de que muitos pacientes foram perdendo gradativamente os
dentes por causa dela, é indispensável estabelecer diagnóstico
diferencial entre as duas.
O problema é que, às vezes, a neuralgia do trigêmeo
se manifesta como dor de dente ou na gengiva e existem atividades
rotineiras que podem desencadeá-la, por exemplo, escovar os
dentes, passar fio dental, mastigar, engolir. O paciente acha que
é dor de dente, e para ele é mesmo, porque ela vem de
uma região do sistema nervoso central que corresponde aos dentes
e à área sensitiva da face.
Por isso, é importante definir as principais características
dessas dores. A neuralgia do trigêmeo é uma dor em choque,
de curtíssima duração, desencadeada por toque
leve ou por fatores que normalmente não causariam dor. A dor
de dente - em geral, uma pulpite - quando é forte, dura mais
do que alguns segundos. Chega a durar horas e a acordar o paciente
durante a noite. É uma dor latejante, porque é vascular,
e pode espalhar-se no segmento dos dentes, da face ou por todo o crânio,
em virtude da sensibilização que provoca no sistema
nervoso central e que amplia a sensação de dor.
Como dentista, convivo com um grupo interdisciplinar no Hospital das
Clínicas, o Centro de Dor da Neurologia, que tem estudado pacientes
com neuralgia e com dor de dente para saber, entre outros temas, qual
a prevalência da extração de dentes no Brasil
ou por que nós, os dentistas, ainda extraímos dentes.
Tudo indica que, muitas vezes, pessoas com neuralgia de trigêmeo
procuram o médico clínico e saem sem diagnóstico
porque não é fácil fazê-lo. Um trabalho
que finalizamos recentemente mostrou que, se considerarmos a população
com neuralgia do trigêmeo há mais de dez anos, todos
os pacientes já perderam os dentes e entre os que apresentam
a doença há um ano, metade não tem mais os dentes.
Drauzio – A que se deve um número
tão alto de extrações?
José Tadeu – No começo, imaginava-se
que era por erro de diagnóstico do dentista. Em parte, é
verdade, porque os profissionais de saúde, o dentista e o médico
clínico, nem sempre conseguem diagnosticar a neuralgia do trigêmeo
quando não têm experiência com a doença
e porque a dor se confunde com vários tipos de dor de dente.
Drauzio – Com que tipos de dor de dente
a neuralgia do trigêmeo se confunde?
José Tadeu – Um dos tipos mais comuns
é a dor do colo dentário, uma dor aguda de curta duração,
semelhante a um choque, que aparece quando se toma sorvete, por exemplo.
Drauzio – O que se pode fazer para reverter
esse quadro?
José Tadeu - Os pacientes com neuralgia que
perderam a metade dos dentes por erro de diagnóstico evidenciam
a necessidade de treinamento e educação continuada.
Eu diria, porém, que não é só a ignorância
dos profissionais que pesa. Uma das principais causas é o fato
de a dor de dente ser muito variada em sua expressão clínica
e isso, às vezes, confundir o próprio paciente.
Talvez a conduta mais indicada para esses casos seja o dentista não
retirar o dente se não encontrar alterações que
justifiquem a extração. Ele deve encaminhar o paciente
para um colega com experiência na área ou para um neurologista
antes de tomar qualquer medida radical.
A pessoa que sabe que tem neuralgia do trigêmeo pode entrar
num ciclo de dor crônica e ser obrigada a submeter-se ao uso
constante de remédios, à mudança de doses e,
às vezes, a cirurgias. No entanto, pessoas socialmente próximas,
inclusive os profissionais que cuidam dela, começam a sugerir
que ninguém pode tomar remédios a vida toda só
por causa da dor. Isso talvez a estimule a procurar novas alternativas
de tratamento, achando que o diagnóstico não está
fechado.
Na verdade, o problema é que o paciente com neuralgia entra
num ciclo de dor crônica em que recebe um sem-número
de “informações desinformadas” e, na busca
de alternativas, acaba tendo mais um dente removido. O curioso é
que, mesmo extraindo todos os dentes, não consegue usar dentadura
porque ela dispara a dor da neuralgia.
Drauzio – Que tragédia!
José Tadeu – A neuralgia do trigêmeo
é relatada há mais de mil anos e as características
do diagnóstico são claras. Anos atrás, fazendo
um levantamento da prevalência da dor em Odontologia, encontrei
um trabalho apresentado num congresso de 1929 por um profissional
do Rio de Janeiro que discutia a dor de dente e a dor das neuralgias
maiores, como eles chamavam a dor de dente que se manifesta à
distância, no ouvido, na cabeça, ou são totalmente
difusas na face. Naquela época, já existiam os mapeamentos
faciais mostrando como essas dores se apresentam.
Dependendo da localização do dente, há uma área
mais específica ou mais comum de manifestação
da dor. Por exemplo, alterações nos molares inferiores
podem manifestar-se como dor de ouvido que, por sua vez pode ser sinal
de problema na coluna cervical ou da articulação têmpero-mandibular.
Essa sintomatologia variada leva à dificuldade de diagnóstico
e exige treinamento maior na semiologia da dor.
Você me perguntou por que o dente dói tanto. Além
do aspecto local, tem o aspecto ligado ao sistema nervoso central.
A representação da boca e do maxilar no córtex
sensitivo é muito grande.
Drauzio – Por ser uma área tão
importante do corpo, a boca tem grande representação
cerebral.
José Tadeu – Estão ligadas à
boca funções importantes como a amamentação
e a respiração, por exemplo. Toda nossa vida vegetativa
tem relação com esse segmento da face.