Extração de dentes

Drauzio – Os médicos
mais velhos contam que, no passado, quando se deparavam com um doente
que apresentava febrícula diária sem causa determinada,
uma das primeiras medidas era recomendar que arrancasse os dentes
e colocasse dentadura, porque as pessoas tinham geralmente dentes
em mau estado e retirá-los eliminaria focos infecciosos. Na
verdade, essa conduta radical e absurda prova que os dentes levam
injustamente a culpa de muitos problemas. Quais são esses os
mais importantes?
José Tadeu – Na história da civilização
humana, há referências muito antigas à extração
de dentes. Do papiro de Ebers (3700 aC a 1500 aC), que representa
a cultura médica egípcia, consta o seguinte relato do
médico do faraó: “se quiser melhorar a dor do
corpo, das costas, dos pés, tire todos os dentes”. Também
se sabe que Beethoven extraiu vários dentes na tentativa de
aliviar as dores que sentia.
No início do século XX, imperou a teoria da infecção
focal, uma vez que a cárie dentária e as doenças
da boca e da gengiva são essencialmente infecciosas. Nesse
aspecto, existe um fato a considerar. Quando ocorre sangramento na
gengiva, os germes da boca caem na corrente sangüínea
e espalham-se momentaneamente produzindo uma bacteremia transitória.
Se as defesas orgânicas estiverem baixas, pode aparecer uma
infecção à distância chamada infecção
focal. Isso existe e sempre existiu, mas nunca se definiam as condições
em que se encontrava o paciente. Simplesmente se extraiam todos os
dentes. Atualmente, através da Biologia Molecular e de testes
modernos, consegue-se comprovar que alguns pacientes com doenças
cardíacas, renais ou reumatológicas são mais
susceptíveis à bacteremia e escolhe-se a melhor conduta
para o caso.
Drauzio – Que outras doenças podem
provocar dor de dentes?
José Tadeu - Embora seja incomum, o câncer
de cabeça e pescoço, em especial o de assoalho da boca,
pode manifestar-se como dor de dente. Além disso, principalmente
nas crianças, a leucemia causa dor e mobilidade do dente, porque
afeta os vasos da polpa dentária e do periodonto e o nervo
dos maxilares.
Hoje, quando a dor de dente ou orofacial é difusa, mal localizada
ou recorrente, devem ser descartadas todas as possibilidades de diagnóstico
de neoplasias, porque elas são muito atípicas na manifestação
da dor. Grande parte dos cânceres de boca tem lesões
aparentes, assimetrias, alterações neurológicas
evidentes, mas se a dor é a primeira queixa a coisa muda de
figura.
No final de 2003, defendi uma tese de mestrado cuja proposta era uma
revisão de 1440 casos de câncer de boca que ocorreram
em vinte anos, no Hospital Heliópolis, em São Paulo
(SP) e ficou evidente que em 20% a dor representava a única
queixa. Eram dores variadas: dor de dente, dor na boca, queimor na
boca ou na língua, dor de cabeça, de ouvido, portanto,
um quadro totalmente atípico da doença.