Nicotina
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José Rosemberg é professor de Pneumologia. Um dos fundadores da Faculdade de Medicina de Sorocaba da Pontifícia Universidade Católica (SP), destaca-se no combate à tuberculose e ao tabagismo. Entre outras obras, em co-autoria com Marco Antônio Miranda e Ana Margarida Arruda Rosemberg, publicou “Nicotina – Droga Universal”.

Crise de abstinência

DrauzioO senhor e eu já fomos fumantes e experimentamos a crise de abstinência de nicotina na pele. Como o senhor venceu esse problema?
José Rosemberg – Fui fumante na mocidade. Estudei na França durante dez anos. Apesar de já estar formado em medicina, levava vida de estudante, com pouco dinheiro. Por isso, fumava Gauloise ,um cigarro barato, sem filtro, um verdadeiro quebra-peito e um charuto muito vagabundo. Quando só restava um pedacinho e não era possível mais segurá-lo entre os dedos, colocava-o na panela de um cachimbo para fumá-lo até o fim.
Um dia, Etienne Bernard, meu professor de tisiologia, me disse - ”Rosemberg, você é médico, vai ser tisiólogo, e fuma. É uma vergonha!” - e eu lhe prometi, como costumam fazer os fumantes: “Tal dia, à meia-noite, paro de fumar”.
Ítalo Svevo, escritor italiano precursor da ficção moderna nascido no século XIX, também marcava datas para largar de fumar. Dizia que, quando houvesse dois 9 no dia do mês ou no número do ano, pararia de fumar. É obvio que nunca parou, mas eu cumpri o que havia prometido. Passei muito mal durante um mês inteiro. Nervoso, não conseguia me concentrar. Tenho a impressão, porém, que não possuo esse gene homozigótico integral e a vontade foi diminuindo aos poucos. No entanto, veja o que é a dependência de nicotina. Na época, eu tinha 25, 26 anos, mas ainda hoje, quase setenta anos depois, sonho que estou fumando e a sensação é muito gostosa.

Drauzio – O senhor largou de fumar há quase setenta anos e ainda sonha que está fumando?
José Rosemberg – Nesses anos todos, tive uma ou outra recaída, que consegui superar, mas até hoje guardo uma coleção de cachimbos, cara e bonita, que mostro de vez em quando.
Cito esse exemplo de que parar de fumar não é uma decisão que dependa só da vontade do fumante. Ele é um dependente de nicotina e pode ter um problema genético que necessita de tratamento.

DrauzioAlgumas pessoas não conseguem deixar de fumar nunca.
José Rosemberg – Não há tratamento para os 5% de fumantes com dependência muito forte da nicotina. Esses estão fadados aa morrer fumando.