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José Rosemberg é professor de Pneumologia. Um dos fundadores da Faculdade de Medicina de Sorocaba da Pontifícia Universidade Católica (SP), destaca-se no combate à tuberculose e ao tabagismo. Entre outras obras, em co-autoria com Marco Antônio Miranda e Ana Margarida Arruda Rosemberg, publicou “Nicotina – Droga Universal”.

Fumantes passivos

Drauzio – Em quanto tempo a nicotina de cada cigarro é excretada?
José Rosemberg
A nicotina se decompõe em duas horas. No entanto, a cotinina leva de 30 a 40 horas para ser decomposta. Se a dosarmos no sangue, saberemos se o indivíduo fumou ou teve contato com fumantes no dia anterior.
Está provado que, mesmo não fumando, a pessoa será um fumante passivo, se trabalhar em ambiente onde as outras pessoas fumam. Experiência com aeromoças não-fumantes, dosando a nicotina e a cotinina antes de embarcarem em Nova York e, depois, quando desembarcavam em Tóquio, demonstrou que aquelas que trabalhavam com o serviço de bordo na área dos fumantes tinham quantidade dessas drogas no sangue igual à das pessoas que fumaram cinco cigarros.
Vários estudos chegaram à mesma conclusão: passar o dia inteiro num ambiente ao lado de fumantes é o mesmo que fumar de cinco a dez cigarros, porque as substâncias cancerígenas do tabaco evolam-se e homogeneízam-se na atmosfera. Depois de duas horas, não faz diferença estar sentado longe ou perto do fumante. Por isso, separar fumantes dos não-fumantes em bares e restaurantes, embora tenha valor psicológico, não tem nenhum valor científico, porque todos os freqüentadores serão intoxicados pela nicotina.

Drauzio –
O senhor poderia explicar o que acontece com os não-fumantes expostos a ambientes onde se fuma?
José Rosemberg -
Está provado que o fumante passivo corre risco maior de infarto e de câncer de pulmão. Estudo realizado em 22 países sobre essas doenças mostrou que sua incidência está acima de 50% nos não-fumantes que freqüentam lugares onde se fuma.
Câncer de pulmão é tido como fator A na poluição tabágica ambiental por causa da capacidade de angiogênese da nicotina, ou seja, de sua capacidade para criar novos vasos sangüíneos. Assim, onde houver uma célula cancerosa, esses novos vasos a nutrirão melhor e ela se reproduzirá mais depressa.
Por outro lado, o gene CYP2A6 tem a propriedade de ativar nitrosamina da qual derivam quatro substâncias tóxicas cancerígenas específicas do tabaco e que não existem em nenhuma outra planta. Uma delas é tão cancerígena que basta uma pincelada no dorso de um hamster para provocar tumor cancerígeno. Como essas substâncias se difundem na atmosfera dos lugares onde se fuma, um dos pontos fundamentais da Convenção-Quadro aprovada por 192 países, em 2003, refere-se à poluição tabágica ambiental como fator de morte. Por essa razão, fumar deve ser proibido em todos os lugares públicos, uma vez que o homem moderno passa a maior parte do tempo em ambientes fechados, nos quais 80% da poluição resultam do consumo de tabaco.

Drauzio –
E ao ar livre, existe perigo?
José Rosemberg -
A poluição nicotínica pode ser forte mesmo ao ar livre. Exame de sangue feito nos guardas da Trafalgar Square, em Londres, revelou presença de nicotina e de monóxido de carbono, este por causa dos automóveis, e a nicotina porque as pessoas fumavam na rua, a céu aberto.
Outro exemplo é o da Praça Vermelha em Moscou, que tem a sua volta o Kremlin, a Igreja de São Pedro, shoppings e museus. Essas construções impedem que o ar circule facilmente. Antes de a União Soviética ser desfeita, formavam-se filas de 20 a 30 mil pessoas que fumavam enquanto aguardavam a vez de aproximar-se do túmulo de Lênin. Estudo realizado na época mostrou que a quantidade de nicotina ali represada era tão grande que, nos últimos anos do governo comunista, foi proibido fumar nessa praça.