Procedimentos cirúrgicos

Drauzio – E quando, apesar
das medicações ministradas em doses corretas, a dor
persiste?
Cláudio Corrêa – Vamos considerar
três hipóteses: o paciente não tolera o medicamento,
desenvolve alergia por ele ou atingiu a dose limite sem resultados
efetivos. Nesses casos, para tratar a neuralgia do trigêmeo
existem quatro técnicas. Três delas são chamadas
técnicas percutâneas. Realizadas em cinco minutos aproximadamente,
sob anestesia local ou sedação, são indicadas
para pacientes mais idosos ou para aqueles com contra-indicação
de uma cirurgia maior.
A quarta técnica envolve cirurgia mais complexa porque é
preciso abrir a base do crânio, procurar o nervo trigêmeo
e verificar se ele está comprimindo algum vaso. Essa técnica
tem sido indicada para pacientes mais jovens porque envolve neurocirurgia
com microscópio e internação na UTI.
Drauzio – Você poderia explicar como
são as técnicas percutâneas?
Cláudio Corrêa - Existem três
técnicas percutâneas. A primeira consiste em injetar
uma substância química chamada glicerol, ou glicerina,
ou propanotriol, e está sendo abandonada pelo alto índice
de recidiva da dor que apresenta.
A segunda, chamada de lesão por radiofreqüência,
foi iniciada em 1932 por um alemão que fazia uma eletrocoagulação.
Portanto, ele queimava o nervo. A eletrocoagulação traz
danos importantes ao paciente, porque provoca uma lesão não
controlada. É como se carbonizássemos o nervo trigêmeo.
Ele vai perder a sensibilidade e isso ninguém quer.
Depois de um certo tempo, na década de 1960, surgiu a radiofreqüência
que permitiu o controle da temperatura. Eu, particularmente, só
indico a radiofreqüência quando existe doença oncológica,
ou seja, um tumor maligno. Na imagem 6, aparece o gânglio de
onde partem os três ramos do trigêmeo (oftálmico,
maxilar e mandibular).
A terceira técnica é a que tem sido mais utilizada.
Consiste em introduzir um cateter em cuja extremidade existe um balãozinho
que é insuflado e distendido por 50 segundos em média
exatamente no gânglio que dá origem ao nervo trigêmeo
(imagem 7). Feito isso, ele é esvaziado e retirado. A compressão
feita em cima do gânglio interrompe a circulação
por 50 segundos. Essa falta de circulação como que imobiliza
ou neutraliza a área que perdeu a bainha de mielina e desaparece
a dor em choque.
Drauzio – Os resultados com o balão
são bons?
Cláudio Corrêa - São espetaculares.
Essa técnica foi descrita por Müllan e Lichtor no início
da década de 1990. Os primeiros estudos foram feitos da Europa,
mas todos os trabalhos de revisão que vieram depois mostram
que o índice de sucesso dessa técnica é de 98%
e que, entre as técnicas percutâneas, essa é a
que menos efeitos colaterais provoca.
Drauzio – Há perda de sensibilidade
na face?
Cláudio Corrêa – Temporária,
dura de 30 a 60 dias no máximo. Na maioria dos casos, a sensibilidade
volta ao normal. Alguns pacientes dizem que pequenas áreas
ficaram com a sensibilidade diminuída, mas nada que incomode
e quando se faz a pergunta – Qual é seu grau de desconforto
comparado com as crises que tinha antes? - a resposta é uma
só: “Ah, doutor, não me lembre do passado. Agora
vivo em paz”.
Drauzio – Você poderia mostrar alguns
casos ilustrativos das técnicas percutâneas?
Cláudio Corrêa – Em relação
às técnicas percutâneas, o interessante é
que o caminho para chegar à região onde fica o gânglio
do nervo trigêmeo foi descrito no começo do século
passado. 
Esse caminho envolve uma punção realizada ao lado da
comissura labial, a demarcação da altura a partir de
três centímetros do poro acústico, um buraquinho
existente no ouvido, e a linha papilar média (imagem 4). A
punção seguindo esses três parâmetros permite
que se atinja um pequeno orifício dentro da base do crânio
que se chama forâmen e alcance o gânglio onde começa
o nervo trigêmeo.
Geralmente, o paciente recebe anestesia local ou leve sedação
para realizar a punção que leva mais ou menos dez minutos
para ser feita.
Com o rosto na posição que mostra a imagem 5 , pode-se
ver a agulha que foi introduzida na região occipital e alcançou
o gânglio do nervo trigêmeo. É importante notar
que a agulha passou por dentro do crânio e não por fora.
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