Histórico das crises

Drauzio – Você
disse que o curso da doença é variável. Algumas
pessoas podem apresentar várias crises num dia, ou ter uma
crise e só depois um intervalo de tempo que pode ser longo,
ter outra. Quais seriam os casos mais representativos da doença?
Cláudio Corrêa – Na minha experiência,
o histórico mais comum é de pacientes que referem dor
há mais de dez anos. No começo, as crises tinham menor
freqüência diária, mas foram progressivamente aumentando,
mas quase todos apresentam intervalos em que não houve manifestação
da doença.
Drauzio – Esses intervalos duram quanto
tempo?
Cláudio Corrêa – O tempo varia
muito. Pode haver meses ou anos de intervalo. O mais comum são
os intervalos de semanas ou de poucos meses entre uma crise e outra.
Intervalos de anos constituem as exceções.
Drauzio – Há casos em que o episódio
é único, dura alguns dias, desaparece e nunca mais volta?
Cláudio Corrêa – Como sou neurocirurgião,
geralmente recebo pacientes triados, que já passaram por neurologistas
e por clínicos e não responderam ao tratamento conservador.
Pacientes que tiveram um episódio isolado dificilmente chegam
ao meu conhecimento. Acredito que um episódio isolado, que
dure alguns segundos, embora provoque dor violenta, como se um fio
elétrico desemcapado tivesse sido encostado na face, assusta
o paciente, mas ele raramente irá procurar um profissional.
É claro que a repetição da crise várias
vezes num dia e em dias consecutivos o obrigará a buscar ajuda.
Drauzio – Esses episódios duram
sempre apenas segundos?
Cláudio Corrêa – Essa é
uma característica muito importante da doença. Às
vezes, recebo no consultório uma pessoa dizendo que tem neuralgia
do trigêmeo. Essa é uma das poucas ocasiões, na
minha área, em que descrevo os sintomas da doença e
deixo o paciente fazer o diagnóstico. Às vezes, ele
ouviu falar que toda a dor na face é sinal de neuralgia do
trigêmeo. Isso não é verdade.
Há várias outras causas para as dores na face. A neuralgia
típica da face é uma dor constante que não segue
o trajeto dos ramos do nervo trigêmeo. As disfunções
da articulação temporomandibular podem até simular
paroxicismo, um choque, mas provocam dor constante e a região
fica sensível à palpação. Alterações
na arcada dentária e alguns tumores raros também são
causa de dor na face.
A neuralgia do trigêmeo tem esta característica: no intervalo
entre uma crise e outra, mesmo que próximas, o paciente é
absolutamente isento de sintomas. Ele tem a dor que dura segundos
e não sente mais nada. O problema é que o intervalo
entre uma e outra pode ser muito pequeno e, em alguns minutos, ocorrem
vários episódios seguidos. Nesse caso, o paciente entra
num estado de mal de crise.
A dor é tão violenta que o normal é ele dizer
que dói sempre, dói demais para chamar a atenção
do médico, mas na anamnese fica claro que se trata de uma dor
que dura segundos. A proximidade entre uma crise e outra, porém,
pode dar idéia de que se trata de um evento mais prolongado.
Drauzio – Os doentes sempre levam a mão
ao rosto quando vem a dor?
Cláudio Corrêa – Sempre levam
e para isso existe explicação. Quando somos picados
por um inseto, qual é nossa primeira reação?
Esfregamos o local porque isso estimula uma fibra nervosa mais grossa
chamada beta que inibe o fenômeno desagradável. Na neuralgia
do trigêmeo, os pacientes têm essa reação
reflexa: levam a mão, apertam, seguram e alguns declaram que,
apertando a região, a dor alivia. Se o alívio é
completo, não temos condição de afirmar. No entanto,
já foi observado que, quando a dor é paroxicística,
o paciente pressiona a região afetada.