Características da neuralgia do trigêmeo

Drauzio – O que faz surgir
a neuralgia do trigêmeo?
Cláudio Corrêa – Apesar de já
ter sido descrita antes de Cristo, a neuralgia do trigêmeo ainda
continua provocando polêmica. Como prevalece na população
mais idosa, acredita-se que a bainha de mielina que envolve os nervos
se perca com o passar do tempo. É um processo degenerativo.
Assim como um fio que perdeu a capa envoltória isolante, em
determinado ponto ocorre uma descarga elétrica. Portanto, a
neuralgia do trigêmeo resulta provavelmente da perda da bainha
de mielina que envolve o nervo trigêmeo e que, depois de perdê-la,
pode sofrer descargas elétricas. É assim que a explica
o paciente que se refere a um choque, a uma dor semelhante a uma fisgada,
a uma pontada num dos três territórios da face por onde
passa o nervo trigêmeo.
Drauzio – Todos os nervos são encapados
pela bainha de mielina. Essa camada que envolve o nervo é fundamental
para que ocorra a condução do estímulo de forma
harmoniosa. Por que essa dor atinge especialmente o trigêmeo?
Cláudio Corrêa – Essa é
uma questão interessante. Vários outros nervos sensitivos
que também perdem a bainha envoltória não têm
o mesmo padrão de comportamento, ou seja, não provocam
dores paroxísticas, agudas rápidas e sem aviso prévio.
A única exceção é o nervo craniano chamado
glossofaríngeo ligado à enervação na base
da língua e na região do ouvido interno e que, às
vezes, pode simular um pouco a neuralgia do trigêmeo porque
também está num território próximo da
face.
Drauzio – Existe alguma explicação
lógica para esses episódios?
Cláudio Corrêa – Não existe
explicação. É um fato relatado sem nada que possa
explicá-lo categoricamente.
Drauzio – As pessoas que tiveram neuralgia
do trigêmeo nunca mais esquecem da dor que sentiram.
Cláudio Corrêa – As pessoas são
capazes de relatar com detalhes o dia e as circunstâncias do
momento, mesmo que o episódio doloroso tenha ocorrido muitos
anos antes. Aliás, a neuralgia do trigêmeo é considerada
uma das dores mais violentas que afligem o ser humano. Talvez, por
esse motivo, as crises nunca sejam esquecidas.
Drauzio – É uma dor mais forte do
que a cólica renal?
Cláudio Corrêa – Na literatura,
são citadas como violentas as dores do infarto do miocárdio,
da cólica renal, de dentes, mas a neuralgia do trigêmeo
é considerada a mais violenta das dores crônicas paroxicísticas
e repetitivas e, às vezes, perdura por décadas.