Mononucleose
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Tratamento
Um vírus, duas doenças






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Dr. João Silva de Mendonça é médico infectologista, presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia e diretor do Serviço de Moléstias Infecciosas do Hospital do Servidor Público do Estado de São Paulo.

Tratamento

DrauzioNo existe nenhum medicamento específico que possa ser usado contra a mononucleose, uma doença provocada pelo vírus Epstein-Barr. Digamos que você receba um paciente com garganta inflamada, febre e que esteja, inadvertidamente, tomando antibiótico. Como você orienta esses casos?
João Mendonça – O tratamento da mononucleose é fundamentalmente sintomático, visando ao alívio dos sintomas e a combater a febre e a dor de garganta. Além disso, o paciente deve permanecer em repouso e evitar situações que possam favorecer a ocorrência de um trauma abdominal.
Talvez essa recomendação não caiba mais na atualidade, mas há registros históricos de que, na mononucleose, o baço cresce e torna-se friável. Portanto, um trauma pode provocar sua ruptura e, como conseqüência, uma hemorragia intra-abdominal que poderá levar ao óbito.

DrauzioPor quanto tempo o repouso deve ser mantido?
João Mendonça –Até que o exame propedêutico, isto é, o exame clínico, deixe claro que o baço voltou à normalidade.

Drauzio Como vão as pesquisas sobre os medicamentos para combater a mononucleose?
João Mendonça – Há registro, pelo menos em laboratório, de que o vírus Epstein-Barr pode ser atacado de alguma forma por um antiviral chamado aciclovir. Em pacientes com AIDS que apresentam leucoplasia pilosa, uma manifestação causada por esse vírus, que é o mesmo da mononucleose, a administração de aciclovir traz algum benefício. No entanto, alguns ensaios feitos com esse medicamento, administrado por via oral ou intravenosa para pacientes com mononucleose, não mostraram resultados convincentes, do ponto de vista clínico, por isso ele não é rotineiramente utilizado.
Outra informação interessante registrada na literatura vem da Escandinávia, onde colegas infectologistas resolveram medicar pacientes com mononucleose um pouco mais arrastada, febre prolongada e garganta que não melhora, com metronidazol. Pode parecer estranho, pois o metronidazol é antibacteriano e antiparasitário e não antiviral. Não se sabe por que, porém, o fato é que eles constataram remissão importante dos sintomas, não nos casos agudos, mas nos que evoluem de maneira muito lenta.
Como a informação da Escandinávia não é metodologicamente definitiva, porque não é ainda medicina baseada em evidências - são casos tratados sem grupo controle - não nos autoriza a colocar como rotina de tratamento o metronidazol, mas essa terapêutica pode ser aplicada em casos individualizados de evolução prolongada da doença.

Drauzio – Você já acompanhou casos arrastados de mononucleose?
João Mendonça – Há casos descritos com um ou dois meses de evolução. Já acompanhei pacientes com a forma antipirética da doença, ou seja, com 40º de febre diariamente por mais de um mês. Esses casos assustam, realmente assustam.

DrauzioExiste alguma forma de evitar o contato com o vírus da mononucleose, uma doença com alta prevalência, uma vez que 90% dos adultos têm anticorpos contra o Epstein-Barr?
João Mendonça – Não creio que haja alguma forma de evitar contato com o vírus, porque ele é eliminado pela saliva do doente contínua ou intermitentemente, por períodos que podem chegar a um ano, um ano e meio ou mais. Isso explica por que é praticamente impossível evitar que, ao longo da vida, a pessoa entre em contato com o vírus e por que a maioria dos adultos tem exames laboratoriais, mostrando que já foi infectada por ele.

DrauzioExiste perspectiva de vacina contra a mononucleose?
João Mendonça – Não há. A obtenção da vacina é um campo que tem despertado pouco interesse nos pesquisadores.