Medicina Esportiva
Atividade física na infância
Atividade física na puberdade
Atividade esportiva na adolescência
Esportes para mulheres
Exercícios com peso
Atividade física depois dos 50
Peso corpóreo e atividade física
Orientações básicas
Tendinite e distensão muscular
Importância do aquecimento
Dor durante o exercício
Conduta de tratamento
Escolha do calçado






BUSCA


Dr. Gilberto Camanho é médico ortopedista. Especialista em Medicina Esportiva, trabalha no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo.


Escolha do calçado

Drauzio - Há pessoas que andam de sapato, outras compram tênis especiais que custam caríssimo. Que critério deve ser adotado na hora de escolher o calçado para fazer exercício?
G. Camanho - Acho importante escolher o calçado adequado para a atividade física que a pessoa pratica. Isso vai do tênis comum até produtos mais diferenciados. Em muitos casos, o pé é o principal ponto de contato do corpo com o ambiente externo. Calçado com bom sistema de amortecimento, boa distribuição de carga, que proteja dos impactos, pode prevenir a ocorrência de lesões e melhorar o desempenho de quem faz exercícios. Hoje se atribui a redução das marcas de tempo em algumas modalidades esportivas à qualidade do calçado que foi desenvolvido para o atleta.

Drauzio - Grande parte das lesões provocadas por exercícios físicos acontecem com os praticantes eventuais. Futebol é um exemplo clássico. Depois de três meses sem passar perto de uma bola, o indivíduo é convidado para um churrasco no sítio de um amigo, entra numa partida entre solteiros e casados e sai do campo mancando ou carregado. Que cuidados deve tomar quem pratica eventualmente alguma atividade física?
G. Camanho - Se o indivíduo não está habituado a fazer exercício, é melhor que vá ao sítio, coma churrasco, beba cerveja e volte para casa. Claro que não estará ajudando em nada seu condicionamento físico, muito menos cardiorrespiratório, mas estará diminuindo a possibilidade de ter um problema sério durante o exercício. Entre o período de inatividade e o de atividade física constante existe um tempo que precisa ser respeitado. Suponha um atleta que corra a prova de 400m. Essa é uma prova interessante porque é a primeira que o indivíduo respira normalmente. Na de 100m, hoje se corre sem respirar e, na de 200m, respira-se muito pouco. Se esse atleta sofrer uma lesão qualquer que o obrigue a ficar afastado das pistas por um ano, levará mais um ano para estar preparado outra vez para competir. Ou seja, para recuperar a performance que tinha antes da lesão, vai levar tempo igual ao que ficou parado. Dá para imaginar o que acontece com o indivíduo que resolveu fazer num dia o que não fez em 50 anos de vida?

Drauzio - É estranho ouvir que o corredor de 100m não respira durante a prova. Não respira mesmo?
G. Camanho - Não respira. Atualmente, se observarmos os atletas que participam de uma olimpíada, veremos que parecem irmãos gêmeos ou parentes próximos, porque são selecionados de acordo com suas características físicas para determinado esporte. O corredor de 100m, em geral, é negro, mede 1,70m/1,75m e tem massa muscular exuberante. O que corre 200m é mais alto, mais esguio e, entre os que correm 1.500m, destacam-se os anglo-saxões e povos da África que têm corpo curto e pernas longas. Na corrida de 100m, os atletas queimam a própria energia. O músculo tem uma reserva de energia que se chama ATP. Ela funciona como carvão que se queima rapidamente e oferece energia da melhor qualidade. Por isso, eles conseguem dar um tiro e percorrer os 100m sem respirar. Mais que isso, entrariam num trabalho metabólico e teriam que respirar, queimar glicose, gordura, etc. Na verdade, esse pessoal está conseguindo cumprir a prova dos 100m em nove segundos. Embora sejam extremamente fortes, tenham os tendões bem preparados, musculatura desenvolvida e reserva energética grande, tenho a impressão de que estão próximos dos limites de resistência dos tecidos. Alguns corredores tentam aplicar essa estratégia à corrida de 200m e alguns já fizeram a prova em menos de 20 segundos.

Drauzio - Quando você fala em povos africanos, a gente se lembra sempre dos quenianos.
G. Camanho - Esses são imbatíveis, são máquinas de correr.Os quenianos são leves, relativamente baixos, têm tronco curto e pernas longas. Se tivessem sido desenhados, não sairiam tão perfeitos; por isso correm e vencem inúmeras competições. No entanto, não vai ser fácil encontrar um queniano que tenha o mesmo desempenho numa corrida de 100m.

Drauzio - Quais as características necessárias para correr provas muito longas como a maratona?
G. Camanho - Em geral, participam dessas provas indivíduos mais velhos. Você não vê maratonistas de 18, 20, 25 anos. A maratona é uma prova técnica que exige concentração e equilíbrio. Talvez o ponto mais importante seja mesmo o equilíbrio psíquico, necessário para manter o corredor concentrado e correndo por duas horas e meia, três horas. Um maratonista consegue correr um quilômetro em menos de 3min o que é uma velocidade considerável.

Drauzio - Eles correm mais ou menos 20km/h. O difícil é conseguir planejar a corrida porque, quando a pessoa sai, não sabe como estará no trigésimo quilômetro.
G. Camanho - A maratona é uma prova que exige planejamento quase matemático e equilíbrio psicológico. Por isso, muitas pessoas correm em grupo. Observe que, em praticamente todas as provas, os quenianos correm juntos e que alguns a abandonam ao longo do percurso porque seu papel era manter o ritmo de corrida daqueles com chance de vencer. Quem consegue completar, sem dúvida, está psiquicamente equilibrado, sabe administrar sua capacidade física e não se deixa levar pelo entusiasmo de um participante que dispara nos 20 primeiros quilômetros e depois fica para trás, se é que consegue terminar a corrida.

Drauzio - Alguns chegam ao limite da resistência.
G. Camanho - O ser humano sempre procura o seu limite. Nessa busca, muitos maratonistas chegam a urinar sangue, têm febre, perdem peso. Quem pretende dedicar-se a corridas de longo percurso precisa ter o cuidado de preparar-se física e psicologicamente para ela.