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Entrevistas:
Câncer de mama





Sérgio Simon é médico oncologista e trabalha no Hospital Albert Einstein.


Mastectomia x cirurgias conservadoras da mama


DrauzioA que se deve essa mudança no paradigma do tratamento do câncer de mama que possibilitou realizar cirurgias mais conservadoras no lugar das mastectomias radicais?
S.Simon – Na verdade, foi o melhor entendimento do processo de evolução do câncer dentro da mama. Como se conhece melhor o caminho por onde o tumor se dissemina, hoje se consegue, com uma cirurgia de menor porte, fazer um cerco completo ao redor das células malignas.
Não se pode deixar de dizer, porém, que as cirurgias radicais constituíram um avanço fundamental na história da medicina, porque possibilitaram curar muitas mulheres que estavam fadadas a morrer de câncer. No entanto, com o passar dos anos, percebeu-se que para tumores pequenos, com até 2,5cm ou 3cm, não fazia sentido indicar uma cirurgia tão vasta, embora a mastectomia seja ainda a solução para tratar tumores maiores.
Cabe registrar ainda que, em 2002, foram realizadas duas retrospectivas avaliando os resultados da mastectomia e da cirurgia conservadora nos últimos vinte anos. A conclusão foi que, em termos de cura do câncer, as duas se mostraram igualmente eficazes.

Drauzio - A possibilidade de reduzir a extensão da cirurgia não resulta só do melhor entendimento da fisiopatologia do câncer, mas também dos diagnósticos que estão sendo realizados mais precocemente, não é?
S.Simon – Exatamente. Na medida em que se localizam lesões microscópicas de 1cm ou 2cm, não há mais justificativa para eliminar a mama inteira. Se o resto está normal, o cirurgião limita-se à área da mama que está doente e aos gânglios da axila, área de drenagem por onde as células malignas podem ter escapado. No passado, eram retirados todos os gânglios para serem examinados e isso ocasionava uma série de problemas: edema (inchaço) no braço operado, falta de proteção contra infecções nesse braço, restrição dos movimentos. Atualmente, utiliza-se uma técnica chamada gânglio sentinela que consiste em injetar contraste colorido ou radioativo na área do tumor para localizar o gânglio em que se acumulou. Em seguida, esse gânglio é examinado para detectar células malignas em seu interior. Se o resultado for negativo, a cirurgia pára aí e ficam apenas dois pequenos cortes, um no local de tumor e outro na axila, que muitas vezes acabam desaparecendo com o tempo.
Além disso, freqüentemente mastologistas e equipes de cirurgia plástica trabalham juntos para evitar que a mulher, depois da retirada do tumor por meio desse procedimento cirúrgico, fique com uma mama muito diferente da outra e, na maioria dos casos, os resultados costumam ser bastante satisfatórios.


DrauzioExiste a possibilidade de se fazer cirurgias conservadoras semelhantes a que foi descrita em mulheres com tumores grandes?
S.Simon – Quando o tumor ultrapassa 3cm, a probabilidade de essa cirurgia ser curativa diminui muito. Em lesões com 4cm, 5cm ou 6cm, o risco de recidiva, isto é, do tumor voltar a aparecer, aumenta em pelo menos 30%. É um risco grande. Por isso, para mulheres com tumores maiores existem duas opções: ou elas fazem quimioterapia antes da cirurgia, a chamada quimioterapia adjuvante, para reduzir o tamanho do tumor de tal forma que três ou quatro meses depois seja viável fazer uma cirurgia conservadora, ou elas são submetidas simultaneamente à mastectomia completa e a uma cirurgia plástica de reconstrução da mama com resultado estético bastante favorável utilizando o músculo do abdômen ou das costas e/ou uma pequena prótese.
No Brasil, a técnica de fazer quimioterapia antes da intervenção cirúrgica conservadora tem sido empregada em 60% ou 70% dos casos.

DrauzioEm 10% ou 20% dos casos tratados previamente com quimioterapia, a lesão desaparece completamente, não é verdade?
S.Simon – Tanto é verdade que antes de começar a quimioterapia é preciso fazer uma tatuagem na mama para indicar a área em que se localiza o tumor. O cirurgião necessita desse referencial para realizar a cirurgia já que conta com a possibilidade de ele desaparecer com o tratamento quimioterápico.