Mastectomia x cirurgias conservadoras da mama

Drauzio – A que se deve essa mudança
no paradigma do tratamento do câncer de mama que possibilitou
realizar cirurgias mais conservadoras no lugar das mastectomias radicais?
S.Simon – Na verdade, foi o melhor entendimento
do processo de evolução do câncer dentro da mama.
Como se conhece melhor o caminho por onde o tumor se dissemina, hoje
se consegue, com uma cirurgia de menor porte, fazer um cerco completo
ao redor das células malignas.
Não se pode deixar de dizer, porém, que as cirurgias
radicais constituíram um avanço fundamental na história
da medicina, porque possibilitaram curar muitas mulheres que estavam
fadadas a morrer de câncer. No entanto, com o passar dos anos,
percebeu-se que para tumores pequenos, com até 2,5cm ou 3cm,
não fazia sentido indicar uma cirurgia tão vasta, embora
a mastectomia seja ainda a solução para tratar tumores
maiores.
Cabe registrar ainda que, em 2002, foram realizadas duas retrospectivas
avaliando os resultados da mastectomia e da cirurgia conservadora
nos últimos vinte anos. A conclusão foi que, em termos
de cura do câncer, as duas se mostraram igualmente eficazes.
Drauzio - A possibilidade de reduzir a extensão
da cirurgia não resulta só do melhor entendimento da
fisiopatologia do câncer, mas também dos diagnósticos
que estão sendo realizados mais precocemente, não é?
S.Simon – Exatamente. Na medida em que se localizam
lesões microscópicas de 1cm ou 2cm, não há
mais justificativa para eliminar a mama inteira. Se o resto está
normal, o cirurgião limita-se à área da mama
que está doente e aos gânglios da axila, área
de drenagem por onde as células malignas podem ter escapado.
No passado, eram retirados todos os gânglios para serem examinados
e isso ocasionava uma série de problemas: edema (inchaço)
no braço operado, falta de proteção contra infecções
nesse braço, restrição dos movimentos. Atualmente,
utiliza-se uma técnica chamada gânglio sentinela que
consiste em injetar contraste colorido ou radioativo na área
do tumor para localizar o gânglio em que se acumulou. Em seguida,
esse gânglio é examinado para detectar células
malignas em seu interior. Se o resultado for negativo, a cirurgia
pára aí e ficam apenas dois pequenos cortes, um no local
de tumor e outro na axila, que muitas vezes acabam desaparecendo com
o tempo.
Além disso, freqüentemente mastologistas e equipes de
cirurgia plástica trabalham juntos para evitar que a mulher,
depois da retirada do tumor por meio desse procedimento cirúrgico,
fique com uma mama muito diferente da outra e, na maioria dos casos,
os resultados costumam ser bastante satisfatórios.
Drauzio – Existe a possibilidade de se
fazer cirurgias conservadoras semelhantes a que foi descrita em mulheres
com tumores grandes?
S.Simon – Quando o tumor ultrapassa 3cm, a
probabilidade de essa cirurgia ser curativa diminui muito. Em lesões
com 4cm, 5cm ou 6cm, o risco de recidiva, isto é, do tumor
voltar a aparecer, aumenta em pelo menos 30%. É um risco grande.
Por isso, para mulheres com tumores maiores existem duas opções:
ou elas fazem quimioterapia antes da cirurgia, a chamada quimioterapia
adjuvante, para reduzir o tamanho do tumor de tal forma que três
ou quatro meses depois seja viável fazer uma cirurgia conservadora,
ou elas são submetidas simultaneamente à mastectomia
completa e a uma cirurgia plástica de reconstrução
da mama com resultado estético bastante favorável utilizando
o músculo do abdômen ou das costas e/ou uma pequena prótese.
No Brasil, a técnica de fazer quimioterapia antes da intervenção
cirúrgica conservadora tem sido empregada em 60% ou 70% dos
casos.
Drauzio – Em 10% ou 20% dos casos tratados
previamente com quimioterapia, a lesão desaparece completamente,
não é verdade?
S.Simon – Tanto é verdade que antes
de começar a quimioterapia é preciso fazer uma tatuagem
na mama para indicar a área em que se localiza o tumor. O cirurgião
necessita desse referencial para realizar a cirurgia já que
conta com a possibilidade de ele desaparecer com o tratamento quimioterápico.