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Dr. Desidério Kiss é médico, professor e chefe do grupo de cirurgia colorretal no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo.

Cirurgia clássica


Drauzio
Como é feita a cirurgia clássica da hemorróidas?
Desidério – Existem muitas técnicas. Uma das mais empregadas em nosso meio foi descrita por dois médicos ingleses por volta de 1930 e consiste em retirar as hemorróidas e deixar a ferida resultante aberta para cicatrizar.
O objetivo da cirurgia para o médico é tirar as hemorróidas. Para o paciente é livrar-se delas e não sentir dor. Suturar a ferida foi a proposta para enfrentar esse duplo desafio e desenvolveu-se o método fechado. Acreditava-se que, suturando a ferida, a dor seria menor. Não é verdade. Se considerarmos as dezenas de técnicas operatórias existentes e fizermos uma curva estatística, a conclusão será a seguinte: 10% dos pacientes não sentem dor nenhuma quer a ferida seja mantida aberta ou fechada; 10% sentem muita dor e precisam de medicamentos potentes. Os 80% restantes ficam na faixa intermediária em que a dor é igual à de qualquer outro pós-operatório e pode ser contornada com antiinflamatórios e analgésicos.
Na verdade, tudo na vida tem um preço. No caso das hemorróidas, é sentir um pouco de dor para livrar-se delas. Se a operação for bem indicada e bem feita, o paciente se sentirá extremamente gratificado com a cirurgia. Imagine uma pessoa com hemorróidas de terceiro ou quarto grau que tem medo de ir a casa de um amigo porque pode sangrar e sujar a roupa. Transponha isso para um restaurante, um cinema ou para o ambiente de trabalho e veja como problema acaba afetando toda a vida do indivíduo.

DrauzioUma coisa difícil de entender é por que se deixa a ferida aberta num lugar que infecta com tanta facilidade. Você poderia explicar por que se adota essa conduta?
Desidério – Realmente é um paradoxo. Em Medicina, muita coisa não se consegue explicar. Durante décadas, pensou-se que suturar a ferida poderia causar infecção e que com ela aberta isso não aconteceria. Eu prefiro o método aberto, mas há grandes especialistas, como a Dra. Angelita Gama, que usam o método fechado e já se sabe que os índices de infecção são comparáveis nos dois métodos.
O mais importante, porém, é o médico eleger uma determinada técnica, aprimorar-se nela e estar apto para fazer variações quando o caso assim o exigir. Uma intervenção indolor é ainda uma promessa utópica. A maioria dos pacientes vai sentir um pouco de dor absolutamente contornável com os analgésicos e antiinflamatórios.