Citogenética

Drauzio – Naquela época, não entendíamos
direito os mecanismos da evolução, nem sequer atinávamos
com a relevância das experiências com as mosquinhas da
banana para explicar o fenômeno da hereditariedade na espécie
humana.
Willy Beçak – Até o início da década
de 1950, não se conhecia ainda o número exato dos cromossomos
existentes na espécie humana, nem que o DNA era um material
genético da maior importância. Os avanços nas
pesquisas, porém, vieram em cadeia. Em 1953, num artigo na
revista inglesa “Nature”, Watson e Crick descreveram
que a dupla hélice do DNA era responsável pelo material
genético; em 1956, Tijo e Levan provaram que o ser humano
tinha 46 cromossomos (23 pares) em cada célula e não
48 como antes se acreditava. Em 1959, Jérôme Lejeune,
na França, descobriu que a síndrome de Down era uma
anomalia cromossômica causada por uma cópia a mais do
cromossomo 21.
No Brasil, em 1960, começou a funcionar o laboratório
de genética no Instituto Butantan, o primeiro a realizar o
estudo citogenético dos cromossomos humanos.
Drauzio – Que relevância tiveram os avanços da
citogenética para a saúde?
Willy Beçak – Citogenética é um ramo da
biologia que se ocupa do estudo da estrutura e da função
dos cromossomos humanos e da correlação entre as alterações
no material cromossômico e a ocorrência ou recorrência
de doenças de caráter genético. Para tanto,
foram de fundamental importância contar com o microscópio óptico
e com o desenvolvimento de determinadas técnicas de cultura
de células do organismo.
Antes de conhecer a composição do material cromossômico,
quando as pessoas eram encaminhadas ao laboratório para estudar
se uma doença era hereditária ou não, nós
nos baseávamos somente na história da genealogia familiar.
Ou seja, verificávamos a presença da enfermidade nos
diferentes membros da família (pais, avós, filhos,
primos, tios, sobrinhos, etc.), se era transmitida sempre diretamente
dos pais para os filhos (dominante), ou se às vezes ficava
silente (recessiva). Era sob a égide do estudo da genealogia,
que se estabelecia o diagnóstico e o aconselhamento genético,
indicando a probabilidade de o casal ter um filho ou um outro descendente
com aquela afecção. Não possuíamos nenhum
meio material para identificar o problema. Foi só com o conhecimento
dos cromossomos humanos e de que várias dessas doenças
eram condicionadas por alterações do material cromossômico
que conseguimos fazer a correlação necessária.
O Laboratório de Genética do Butantan foi o primeiro
a aplicar a citogénetica humana no Brasil. Desenvolvemos uma
técnica que permitiu basear o aconselhamento genético
em dados objetivos. Uma vez feita a coleta de sangue dos pais e,
depois de cultivar as células e analisar o material ao microscópio,
era possível dizer para um casal, com grande margem de acerto,
se um filho possuía alterações cromossômicas
próprias de determinada doença genética e qual
era a probabilidade de outros filhos serem afetados.
Apesar de nem todas as doenças genéticas serem condicionadas
por anomalias cromossômicas, a citogenética representou
uma contribuição extremamente importante para o estudo
das enfermidades. Hoje, graças aos avanços decorrentes
do esforço para o mapeamento do genoma humano, dominamos técnicas
bioquímicas e citológicas mais desenvolvidas e sofisticadas.
Um exemplo são as sondas genéticas que têm afinidade
por um gene específico em determinado cromossomo. Se o gene
for anômalo, ela se fixa naquele lugar, o que facilita identificar
os portadores de alterações. Nos genes normais, elas
não se fixam.