Poliploidia

Drauzio – Uma parte
expressiva do genoma humano é chamada
de “junk”, palavra inapropriadamente traduzida por lixo,
em português, porque aparenta não ter nenhuma serventia.
Não parece razoável que a natureza tenha conservado
tanto “lixo”, se ele não tivesse alguma aplicação,
o que justifica o interesse atual da ciência em estudar esses
componentes inúteis do DNA.
Willy Beçak – Uma quantidade de DNA foi-se multiplicando,
durante a evolução, através de vários
mecanismos, entre eles o de duplicação e o de poliploidia.
Para entender melhor esses mecanismos, vamos lembrar que o material
genético está codificado em genes que se encontram
nos cromossomos, entidades físicas (filamentos) que existem
dentro do núcleo das células e visualizam o código
genético nela concentrado. Cada célula tem um número
fixo de cromossomos que pode multiplicar-se. Então, uma célula
que tem normalmente dois cromossomos de cada tipo, por isso se chama
célula diplóide, passa a ter quatro e recebe o nome
de célula tetraplóide. Essa é a base do mecanismo
de poliploidia que se manifestou várias vezes no transcorrer
da evolução e forneceu uma quantidade de material genético
sujeita à mutação e à seleção.
Os mamíferos evoluiriam por poliploidia natural. Parte dos
genes se diversificou, parte foi eliminada e parte permanece sujeita
a mutações. Esse mecanismo é importante porque
duplica a quantidade de DNA e é responsável pela formação
de novas espécies, embora elas normalmente se desenvolvam
pelo acúmulo lento de mutações provocado pelo
isolamento tanto geográfico, quanto reprodutivo. Quando ocorre
a poliploidia, porém, de repente, num salto evolutivo de diferenciação
e especiação, uma espécie se transforma em duas.
Nosso laboratório no Butantan foi o primeiro a descobrir a
poliploidia em vertebrados naturais. Estudando anfíbios no
Brasil, Maria Luiza Beçak, minha esposa, que foi diretora
do Laboratório Genético do Instituto Butantan, e sua
equipe verificaram que os mesmos sapos podiam ser diplóides,
tetraplóides e octoplóides, ou seja, podiam possuir
dois, quatro e oito cromossomos de cada tipo. Eram espécies
críticas de anfíbios diferentes que, embora não
se distinguissem fenotipicamente, mantinham-se isoladas e não
cruzavam entre si.
Essa contribuição é extremamente importante
porque comprova que, através de um simples salto espontâneo
na natureza, o material genético pode duplicar-se, passando
a ter, se for tetraplóide, 50% de material genético
sujeito a mutações sem afetar a viabilidade do organismo,
que é garantida pelo conjunto diplóide. Esses 50% ou
são eliminados, ou sofrem mutações e se fixam,
como é o caso da duplicação do gene da hemoglobina,
ou continuam ali e constituem o “junk” via DNA.
O corte realizado pelos geneticistas do Butantan comprovou, ainda,
a existência do mecanismo espontâneo de poliploidia.
Se compararmos os répteis e as aves com os mamíferos,
veremos que estes últimos evoluíram por poliploidia
natural, e que parte dos genes se diversificou, parte foi eliminada
e parte permanece sujeita a mutações. Esse mecanismo é importante
não só porque duplica a quantidade de DNA, mas porque
promove a formação de novas espécies, de tal
forma que, num ato simples, uma espécie se transforma em duas.