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Dr. Willy Beçak, geneticista especializado em Genética Humana e Animal, é diretor científico do Serviço de Genética do Instituto Butantan de São Paulo (SP).


Tipos de genes

Drauzio Quando se pensa em seleção natural, vem logo a idéia de competição selvagem na natureza, de seres lutando pela própria sobrevivência, e se esquece da competição entre os genes, que é muito mais sutil e antiga.
Willy Beçak – Esse é o mecanismo básico subjacente. O conhecimento do genoma nos mostrou que, apesar da enorme massa de DNA da qual fazem parte os genes, só uma parcela mínima é constituída pelos genes estruturais. Outra é formada pelos genes reguladores e outra, ainda, por um material neutro que até agora ninguém sabe para que serve, qual proteína codifica e em que etapa do desenvolvimento se expressa.

DrauzioVocê poderia explicar o que são genes estruturais e genes reguladores?
Willy Beçak – Os genes estruturais são responsáveis pela codificação das proteínas indispensáveis ao organismo. Os genes reguladores determinam como e quanto dessa proteína vai se expressar, ou seja, controlam a expressão dos genes estruturais.
Vamos dar um exemplo: a principal proteína do nosso sangue é a hemoglobina, que é codificada por um gene estrutural, mas são os genes reguladores que coordenam a forma de expressão e a quantidade dessa proteína em cada organismo. Outro exemplo: os genes estruturais são responsáveis pela cor dos olhos, mas são os reguladores que definem a intensidade da cor, mais clara ou mais escura, e a forma como ela se manifesta.

Drauzio Além desses, existem outros genes também muito importantes...
Willy Beçak – Além desses, existe uma quantidade imensa de genes importantes ou para outros mecanismos regulatórios que vão manter o organismo e a célula vivos, ou que podem ser sujeitos a pressões de seleção e a mutações.
Como se sabe, todo material genético pode sofrer mutações espontâneas ou induzidas por fatores ambientais, como acontece com a exposição ao ozônio, aos raios ultravioleta, à fumaça dos ônibus. Quando são deletérias, ou o organismo elimina o produto indesejado, ou é eliminado por ele. A mutação vantajosa, ao contrário, se fixa no DNA. O resultado dessas mutações aditivas produz material genético sujeito à seleção e à evolução.
O mapeamento do genoma nos mostrou que grande quantidade desse material está sujeita continuadamente a mutações. Quando ocorrem nas células somáticas, acabam se expressando seletivamente no organismo; quando ocorrem nas células germinativas, que são os gametas, podem produzir indivíduos distintos, melhores ou piores, não importa.
Se analisarmos o que aconteceu com todo o material genético existente na natureza, veremos que, várias vezes, foi multiplicado e sofreu modificações. Algumas delas se fixaram por seleção natural, quando eram vantajosas para o organismo.
Voltando ao exemplo da hemoglobina, a célula do sangue dos organismos primitivos possui um único tipo de hemoglobina. Ao longo do processo evolutivo, os genes codificadores da hemoglobina foram se multiplicando e sofrendo mutações que se fixaram. O resultado, no ser humano, é que existem tipos diferentes de hemoglobina no feto intra-uterino, no recém-nascido e no adulto e, também, tipos mutantes que podem causar doenças como a anemia falciforme e a talassemia, que nada mais são do que alterações deletérias, prejudiciais.