Parte I
Fundamentos

Drauzio – Quando surgiu
o interesse pelo estudo das características hereditárias?
Willy Beçak – A Genética que hoje desperta enorme
interesse e a toda hora é assunto discutido na mídia,
teve um início bastante obscuro. Gregor Mendel, um padre que
vivia na antiga Tchecoslováquia, nos idos de 1860, fazendo
experiências com sementes de ervilha e acompanhando o desenvolvimento
das plantas, deduziu que certas características hereditárias
se manifestavam de acordo com leis que eram válidas para todos
os organismos vivos.
Apesar da importância desses achados, durante quase 30 anos
eles permaneceram na obscuridade. Foi só em 1900, quando três
cientistas, trabalhando com o cruzamento de plantas em lugares diferentes
da Europa, redescobriram as leis de Mendel sobre a hereditariedade,
que o estudo da Genética se desenvolveu efetivamente.
Colaboraram também nesse sentido, as pesquisas realizadas
pelo americano Morgan com a drosófila, a mosca das frutas,
que tem um ciclo de vida de 21 dias, o que facilita a observação
de como se distribuem as características hereditárias
ao longo das gerações.
O início foi lento, mas bastante consistente. Embora já se
tenha conseguido chegar à estrutura do DNA em 1956 e ao seqüenciamento
do genoma humano, a base da Genética continua sendo as leis
de Mendel.
Drauzio – Mendel trabalhou com
linhagens de ervilhas e formulou leis de combinação entre os genes (ele os chamava de
fatores) que determinam a transmissão das características
hereditárias. Depois vieram as experiências com a drosófila,
a mosquinha da banana madura. Não parece intrigante que as
bases da genética humana e de todos os seres vivos sejam as
plantas e um inseto tão pequeno?
Willy Beçak – É verdade. Apesar de estarem tão
distantes na escala evolutiva e filogenética, o mecanismo
que rege as leis de hereditariedade válido para as ervilhas
e para as drosófilas é exatamente o mesmo em todos
os seres vivos. O fato de, no passado, os recursos serem mais parcos,
a tecnologia mais elementar e os microscópios mais simples,
não alterou os resultados: o que foi visto para as ervilhas
e as moscas é válido para todos os seres vivos. Para
desespero dos que têm a vaidade de achar que o ser humano é uma
criatura superior, nossa semelhança com organismos primitivos é enorme.
Somos todos parecidos com as ervilhas de Mendel e com a Drosophila
melanogaster da banana.