Problema psicossocial

Drauzio - Interessante esse
círculo vicioso ao qual você se referiu. Pessoas com
dificuldade de fala evitam situações que as obrigue
falar na frente dos outros. Ora, como falar em público implica
aprendizado e treino, a tendência é só agravar
o problema.
Fernanda P. Limongi – Por isso, digo que a gagueira
é um problema pessoal e um problema social também, porque
a reação do ouvinte é muito importante. O gago
espera causar boa impressão; espera que o ouvinte o entenda,
elogie e aprove. As pessoas não gaguejam quando estão
sozinhas em casa. Experimentos mostram que, lendo no quarto, sem ninguém
por perto, o gago é fluente. Se notar, porém, que alguém
se aproximou, começará a gaguejar. Se não perceber,
continuará fluente.
Drauzio – Por isso, quem está de fora
conclui que o problema é eminentemente psicológico, porque
sozinho o gago consegue ser fluente.
Fernanda P. Limongi – Nenhum gago gagueja falando
com o próprio cachorro ou com um bebezinho, porque a exigência
da comunicação desaparece. Sem cobrança, ele consegue
falar bem. Isso pode reforçar a idéia de que a gagueira
é um fenômeno só psicológico. No entanto,
há outros fatores envolvidos.
Vamos voltar ao círculo vicioso. A expectativa de ter que falar
gera tensão, que é um componente físico, e a
musculatura não obedece. É como se a palavra ficasse
presa. Já vi momentos de gagueira que se estenderam por quase
um minuto.
Por que falando com o cachorro, com o bebê ou sozinha no quarto
isso não acontece? Porque não havendo necessidade de
preparar a fala, não existe ansiedade nem tensão.