Exames laboratoriais

Drauzio – Além desses exames para
avaliar o desempenho do coração que requerem aparelhos
para serem realizados, existem os exames de sangue de rotina. Vamos
falar um pouco sobre eles.
C A Pastore – Existe um empenho mundial em
estudar a genética do infarto, porque definir os marcadores
que vão levar à inflamação das artérias
e predispor à aterosclerose é muito importante para
prevenção. Numa pessoa com histórico familiar,
os exames do colesterol e suas frações, do triglicérides
e de alguns marcadores, como proteína C-reativa e homocisteína,
são importantes para estimar o risco de doença cardíaca.
Drauzio – Você tem insistido na questão
da genética, que realmente é muito importante. Além
das pessoas com história familiar de doenças do coração,
que outras pertencem ao grupo de risco?
C A Pastore – Eu diria que diabetes, obesidade
e hipertensão arterial estão entre as que têm
chamado mais atenção, porque são doenças
que agridem o endotélio (tecido que reveste os vasos sangüíneos),
que inflama e isso facilita a deposição de colesterol
nas artérias. Portanto, o indivíduo que é diabético,
hipertenso, obeso, tem ácido úrico elevado e fuma agregou
fatores que agridem o endotélio e está mais propenso
a doenças do coração.
Drauzio – De quanto em quanto tempo, pessoas
com fatores de risco associados devem passar por avaliação
cardíaca?
C A Pastore – Pelo menos uma vez a cada semestre,
porque manter pressão arterial e diabetes bem controlados é
importante para diminuir a agressão ao endotélio. Além
disso, se perder peso e praticar alguma atividade física, estará
contribuindo para a melhora das condições arteriais.
Todos esses cuidados não substituem a medicação,
quando ela é necessária. As pessoas acham que conseguem
fazer a prevenção sem tomar remédios. Infelizmente,
a genética demonstrou que, muitas vezes, isso não é
possível. Algumas medicações são fundamentais
e indispensáveis para proteger as paredes internas das artérias
e para baixar os níveis de colesterol.
Drauzio – Não há dúvida
de que o comprometimento do endotélio facilita a formação
da placa de gordura que provoca a obstrução das artérias,
mas há pessoas que dizem haver exagero na prescrição
das drogas para controlar o colesterol. Qual é sua opinião
a respeito do assunto?
C A Pastore – As estatinas são conhecidas
há 20, 30 anos. Descobertas por acaso, demonstraram ser eficazes
não só para baixar os valores do colesterol, mas também
como antiinflamatórios. Cada vez mais sofisticadas e eficientes,
atuam sobre o endotélio, diminuindo a inflamação.
Na verdade, as estatinas mudaram o caminho da doença aterosclerótica
e são indicadas para diabéticos e hipertensos, em razão
dos benefícios que trazem na evolução da doença
cardiovascular. Por causa de sua ação antiinflamatória,
também estão sendo usadas na artrite reumatóide
e pelos oftalmologistas e levanta-se a possibilidade de utilizá-las
na doença de Alzheimer.
Portanto, posso dizer com tranqüilidade que a indicação
dessa droga tem-se mostrado cada vez mais importante no controle de
certas doenças.
Drauzio – Em que você se baseia para
indicar as estatinas para o controle do colesterol?
C A Pastore – Os valores do colesterol solicitados
estão cada vez mais baixos e há pacientes que não
conseguem deixá-los menores do que 200 apenas com dieta. Às
vezes, é muito difícil mesmo. O resultado de uma dieta
espartana não provoca mais de 20% na redução
dos valores do colesterol e ninguém suporta mantê-la
por mais de dois meses. Então, é necessário apelar
para o bom senso e associar à dieta um pouco de medicação,
deixando liberdade para as extravagâncias nos finais de semana.
Pessoas com predisposição genética para o aumento
do colesterol não podem levar a vida comendo o que querem todos
os dias. Precisam de cuidado com a dieta e de medicação.