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Dr. Stefan Cunha Ujvari é médico infectologista e autor do livro “A história e suas epidemias” (Editora Senac).

Dengue e febre amarela

DrauzioVamos falar da dengue, doença tropical que inferniza a vida do homem na cidade grande.
Stefan – É interessante perceber que a história da humanidade caminha junto com a dos microorganismos. Estudos a respeito do material genético do vírus da dengue demonstraram que a população viral aumentou muito na natureza nos últimos 200 anos, coincidentemente com a pós-revolução industrial e a urbanização do homem. O lixo orgânico que passou a ser acumulado em volta das casas nas cidades funcionou como recipiente para a água da chuva e favoreceu a proliferação do mosquito transmissor do vírus, o Aedes aegypti.
No entanto, na década de 1960 ele havia sido erradicado na América do Sul. No Brasil, foi extinto graças às medidas adotadas por Osvaldo Cruz no começo do século XX para acabar com a febre amarela que também é transmitida por esse mosquito. Sem ele por perto, o vírus da dengue e o da febre amarela urbana desapareceram.
Acontece que na década de 1970 o controle foi relaxado e o Aedes aegypti entrou novamente no país e de casa em casa, de cidade em cidade, se espalhou pelo Brasil inteiro. Seu retorno foi facilitado pelo acúmulo de lixo, desta vez lixo industrial, que coletava água da chuva. O habitat estava preparado e o vírus, que veio nas embarcações procedentes do Sudeste Asiático e da Oceania, voltou a ameaçar a população urbana.
Casos de dengue reapareceram no início da década de 1990 e gradativamente foram aumentando até que, em 2002, ano da pior epidemia, 700 mil novos casos foram registrados.
No momento, estamos cercados pela malária que se dissemina na periferia da floresta amazônica e pela dengue, nas regiões urbanas, nas cidades próximas ao litoral.

Drauzio O problema é que o Aedes aegypti, além de transmissor da dengue, transmite também a febre amarela.
Stefan – Esse mosquito também pode transmitir o vírus da febre amarela, doença que se manifesta principalmente na periferia da floresta amazônica. Nos últimos anos, porém, focos dessa doença surgiram em outros locais e o interesse maior das pessoas pelo ecoturismo pode explicar o fato. É provável que picadas pelo mosquito na floresta, tenham voltado doentes para as cidades e infectaram os Aedes aegypti. Em 1999, houve uma epidemia pequena de febre amarela urbana na Chapada dos Veadeiros e, em 2001, uma no noroeste de Minas Gerais. Isso sugere que a febre amarela urbana, doença extinta no Brasil desde a década de 1940, pode estar voltando.