Diagnóstico diferencial

Drauzio – Qual o critério
ideal a ser respeitado?
Salomão Schwartzman - Como norma, considera-se
disléxico o indivíduo sem deficiência mental,
exposto a oportunidades intelectuais e culturais adequadas, visto
que enorme parcela da população brasileira não
tem a menor possibilidade de desenvolver a leitura e a escrita, não
porque seja constituída por disléxicos, mas porque não
é exposta aos estímulos culturais. Por isso, é
preciso diferenciar o indivíduo que não sabe ler e escrever,
o mau leitor e o analfabeto funcional daqueles que são portadores
de dislexia.
Drauzio – Nos níveis sociais mais
baixos, quando o médico escreve uma receita, pergunta ao paciente
se sabe ler e ouve como resposta “mais ou menos”, é
sinal de que não sabe. Na verdade, até hoje não
é pouco freqüente encontrar quem tenha freqüentado
a escola só até a 3ª, 4ªsérie. Nesse
universo, é provável que alguns tenham dificuldade com
a leitura e a escrita porque são disléxicos, mas tanta
gente assim não é possível.
Salomão Schwartzman – Atualmente, a
situação está ainda mais confusa por causa da
impossibilidade de reprovar o aluno que não está preparado
para acompanhar a série seguinte. Estudos têm mostrado
que, quando se compara a eficiência do aluno brasileiro em matemática
e português com os de outros países do mundo, o Brasil
ocupa quase o último lugar.
Mesmo os indivíduos que não são disléxicos
têm enorme dificuldade de ler adequadamente e compreender o texto.
Sou professor de pós-graduação e testemunha da
dificuldade que parte de meus alunos tem para escrever a monografia.
Não estou falando dos erros ortográficos. Estou me referindo
à dificuldade de passar para o papel aquilo que estão
pensando, o que, sem dúvida, é fruto do nosso sistema
educacional ineficiente.
Drauzio – Você não acha que
a maior preocupação deveria ser ensinar a ler, porque,
se a pessoa não souber ler direito ou não entender o
que lê, todo o aprendizado estará comprometido?
Salomão Schwartzman – Claro. Prova disso
é a queda nas vendas no mercado de livros, que nunca foi muito
bom, aliás. A venda de livros técnicos cai 11% ao ano
e de livros não técnicos, de 30% a 40%. As pessoas não
lêem não porque não sintam prazer na leitura.
Não lêem porque não sabem ler. Esse é um
problema sério por ênfase inadequada do sistema educacional.
Não estamos ensinando as pessoas a ler.
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