Dislexia
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Dr. José Salomão Schwartzman é neuropediatra. Formado na Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo, especializou-se em Neurologia Infantil no Hospital for Sick Children, em Londres, e é professor titular de pós-graduação em Distúrbios do Desenvolvimento na Universidade Presbiteriana Mackenzie.


Diagnóstico diferencial

Drauzio Qual o critério ideal a ser respeitado?
Salomão Schwartzman - Como norma, considera-se disléxico o indivíduo sem deficiência mental, exposto a oportunidades intelectuais e culturais adequadas, visto que enorme parcela da população brasileira não tem a menor possibilidade de desenvolver a leitura e a escrita, não porque seja constituída por disléxicos, mas porque não é exposta aos estímulos culturais. Por isso, é preciso diferenciar o indivíduo que não sabe ler e escrever, o mau leitor e o analfabeto funcional daqueles que são portadores de dislexia.


Drauzio Nos níveis sociais mais baixos, quando o médico escreve uma receita, pergunta ao paciente se sabe ler e ouve como resposta “mais ou menos”, é sinal de que não sabe. Na verdade, até hoje não é pouco freqüente encontrar quem tenha freqüentado a escola só até a 3ª, 4ªsérie. Nesse universo, é provável que alguns tenham dificuldade com a leitura e a escrita porque são disléxicos, mas tanta gente assim não é possível.
Salomão Schwartzman – Atualmente, a situação está ainda mais confusa por causa da impossibilidade de reprovar o aluno que não está preparado para acompanhar a série seguinte. Estudos têm mostrado que, quando se compara a eficiência do aluno brasileiro em matemática e português com os de outros países do mundo, o Brasil ocupa quase o último lugar.
Mesmo os indivíduos que não são disléxicos têm enorme dificuldade de ler adequadamente e compreender o texto. Sou professor de pós-graduação e testemunha da dificuldade que parte de meus alunos tem para escrever a monografia. Não estou falando dos erros ortográficos. Estou me referindo à dificuldade de passar para o papel aquilo que estão pensando, o que, sem dúvida, é fruto do nosso sistema educacional ineficiente.

Drauzio – Você não acha que a maior preocupação deveria ser ensinar a ler, porque, se a pessoa não souber ler direito ou não entender o que lê, todo o aprendizado estará comprometido?
Salomão Schwartzman – Claro. Prova disso é a queda nas vendas no mercado de livros, que nunca foi muito bom, aliás. A venda de livros técnicos cai 11% ao ano e de livros não técnicos, de 30% a 40%. As pessoas não lêem não porque não sintam prazer na leitura. Não lêem porque não sabem ler. Esse é um problema sério por ênfase inadequada do sistema educacional. Não estamos ensinando as pessoas a ler.