Possíveis causas

Drauzio – O processo
de construção das frases, de agrupamento dos fonemas,
os conceitos gramaticais que incorporamos sem perceber, são
de extrema complexidade cerebral. Isso fica evidente nas pessoas que
sofreram micro-infartos cerebrais e que perdem a habilidade de falar
substantivos, ou verbos, ou adjetivos. Se perderam a capacidade de
falar adjetivos, por exemplo, quando querem dizer “O gato derrubou
o vaso azul”, pensam na palavra azul, mas a omitem porque ela
não aparece no centro de articulação dos fonemas.
O disléxico também apresenta essa dificuldade com a
classe gramatical, ou seu problema é global?
Salomão Schwartzman – Habitualmente
é global. No entanto, é preciso diferenciar dois tipos
fundamentais de dislexia. Primeiro: a dislexia adquirida que aparece
quando o indivíduo já lia ou a criança já
falava, mas perderam essas habilidades em função de
algum dano em seu cérebro. Segundo: a dislexia que surge no
momento em que o processo de aprendizagem de leitura e escrita está
ocorrendo. Nesses casos, parece que o principal defeito é não
conseguir estabelecer a memória fonêmica, ou seja, a
memória do som, uma vez que para decodificar o estímulo
escrito é preciso estabelecer relação entre a
letra que vejo e o fonema que escuto, fazer as conexões necessárias
e enviar a informação para a área da linguagem
no cérebro. De acordo com esse critério, os disléxicos
têm um defeito congênito de gravidade variável
na memória fonêmica que interfere na decodificação
do estímulo sonoro. Tanto é assim, que a maioria dos
métodos de tratamento visa a melhorar a estrutura fônica
do indivíduo.
Drauzio – Pais e professores conseguem
reconhecer esse problema rapidamente na criança?
Salomão Schwartzman – Há trabalhos
mostrando que existem certas evidências da dislexia antes de
o processo de leitura começar. O histórico desses indivíduos
mostra que alguns são desajeitados e têm dificuldade
motora para dar um laço no cordão do sapato, por exemplo.
Essa teoria é ainda discutível e não dá
a garantia de que serão disléxicos, quando iniciarem
o processo de alfabetização.
Drauzio – Você disse que existem
muitos mitos a respeito da dislexia. Você poderia dar um exemplo?
Salomão Scwartzman – Um dos mitos é
que os disléxicos escrevem invertido, ou seja, desenvolvem
a escrita especular. Não é verdade. A maioria dos disléxicos
não escreve assim e crianças sem o distúrbio
também podem apresentar essa característica no jnício
da alfabetização, especialmente se forem canhotas ou
tiverem canhotos na família. Portanto, escrita em espelho não
é necessariamente sinal de dislexia, um distúrbio associado
à dificuldade de ler, escrever e compreender o texto.
Drauzio – Relação entre dislexia
e quociente intelectual pode ser estabelecida de alguma forma?
Salomão Schwartzman – Pode, mas esse
é um dado complicador para a avaliação. Diagnosticar
dislexia significa reconhecer que determinado indivíduo tem
dificuldade de leitura e escrita desproporcional a seu QI. O que isso
representa diante de um deficiente mental leve com dificuldade desproporcional
nessa área? Ele é deficiente ou disléxico? Nesse
caso, o julgamento tende a ser subjetivo. Cada um avalia de acordo
com seus critérios. Por isso, acho complicado fazer o diagnóstico
de dislexia estabelecendo relações com o QI.
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