Dislexia
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Dr. José Salomão Schwartzman é neuropediatra. Formado na Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo, especializou-se em Neurologia Infantil no Hospital for Sick Children, em Londres, e é professor titular de pós-graduação em Distúrbios do Desenvolvimento na Universidade Presbiteriana Mackenzie.


Possíveis causas

Drauzio O processo de construção das frases, de agrupamento dos fonemas, os conceitos gramaticais que incorporamos sem perceber, são de extrema complexidade cerebral. Isso fica evidente nas pessoas que sofreram micro-infartos cerebrais e que perdem a habilidade de falar substantivos, ou verbos, ou adjetivos. Se perderam a capacidade de falar adjetivos, por exemplo, quando querem dizer “O gato derrubou o vaso azul”, pensam na palavra azul, mas a omitem porque ela não aparece no centro de articulação dos fonemas. O disléxico também apresenta essa dificuldade com a classe gramatical, ou seu problema é global?
Salomão Schwartzman – Habitualmente é global. No entanto, é preciso diferenciar dois tipos fundamentais de dislexia. Primeiro: a dislexia adquirida que aparece quando o indivíduo já lia ou a criança já falava, mas perderam essas habilidades em função de algum dano em seu cérebro. Segundo: a dislexia que surge no momento em que o processo de aprendizagem de leitura e escrita está ocorrendo. Nesses casos, parece que o principal defeito é não conseguir estabelecer a memória fonêmica, ou seja, a memória do som, uma vez que para decodificar o estímulo escrito é preciso estabelecer relação entre a letra que vejo e o fonema que escuto, fazer as conexões necessárias e enviar a informação para a área da linguagem no cérebro. De acordo com esse critério, os disléxicos têm um defeito congênito de gravidade variável na memória fonêmica que interfere na decodificação do estímulo sonoro. Tanto é assim, que a maioria dos métodos de tratamento visa a melhorar a estrutura fônica do indivíduo.

DrauzioPais e professores conseguem reconhecer esse problema rapidamente na criança?
Salomão Schwartzman – Há trabalhos mostrando que existem certas evidências da dislexia antes de o processo de leitura começar. O histórico desses indivíduos mostra que alguns são desajeitados e têm dificuldade motora para dar um laço no cordão do sapato, por exemplo. Essa teoria é ainda discutível e não dá a garantia de que serão disléxicos, quando iniciarem o processo de alfabetização.

DrauzioVocê disse que existem muitos mitos a respeito da dislexia. Você poderia dar um exemplo?
Salomão Scwartzman – Um dos mitos é que os disléxicos escrevem invertido, ou seja, desenvolvem a escrita especular. Não é verdade. A maioria dos disléxicos não escreve assim e crianças sem o distúrbio também podem apresentar essa característica no jnício da alfabetização, especialmente se forem canhotas ou tiverem canhotos na família. Portanto, escrita em espelho não é necessariamente sinal de dislexia, um distúrbio associado à dificuldade de ler, escrever e compreender o texto.

Drauzio – Relação entre dislexia e quociente intelectual pode ser estabelecida de alguma forma?
Salomão Schwartzman – Pode, mas esse é um dado complicador para a avaliação. Diagnosticar dislexia significa reconhecer que determinado indivíduo tem dificuldade de leitura e escrita desproporcional a seu QI. O que isso representa diante de um deficiente mental leve com dificuldade desproporcional nessa área? Ele é deficiente ou disléxico? Nesse caso, o julgamento tende a ser subjetivo. Cada um avalia de acordo com seus critérios. Por isso, acho complicado fazer o diagnóstico de dislexia estabelecendo relações com o QI.