Desvantagens da alfabetização
precoce

Drauzio – O ensino no
Brasil está preparado para atender alunos com dislexia?
Salomão Schwartzman – Estamos vivendo
uma época complicada no que se refere à educação
pública do Brasil, e a educação privada também
passa por momentos em que são discutíveis tanto o currículo
quanto o preparo dos professores. Não se pode negar que há
uma série de fatores interferindo no aprendizado. Como médico,
também me preocupa estarmos seguindo a cultura dos países
de primeiro mundo, que tornou o processo de ensino da escrita e da
leitura cada vez mais precoce. Na minha época, as crianças
iam para a escola aos sete anos. Antes faziam tudo o que tinham direito,
não tocavam num lápis se não quisessem, mas chegavam
absolutamente maduras para serem alfabetizadas. Depois, veio a moda
da pré-escola e o processo de alfabetização recuou
para os seis anos, para os cinco e, pasmem, recebo crianças
com 4 anos com suspeita de dificuldade de aprendizagem escolar, o
que é uma piada! Com quatro anos, não deveriam estar
na escola, mas, se estão, que seja por algum outro motivo que
não a leitura e a escrita. Portanto, como se alfabetiza muito
cedo, cada vez mais as crianças estão menos prontas
para iniciar o processo e são identificadas dificuldades de
aprendizagem que, na realidade, não existem.
Drauzio – Você vê alguma vantagem em
alfabetizar a criança tão cedo assim?
Salomão Schwartzman – Vejo só
desvantagens. Do ponto de vista neurológico, na média,
o brasileiro está pronto para ser alfabetizado aos seis, sete
anos, o que não significa que algumas crianças o façam
aos três e outras, aos nove anos. Esse pressuposto desperta
muita polêmica, pois, além de estarem ensinando inúmeros
conteúdos muito cedo, a maioria das pré-escolas é
bilíngüe, com as vantagens e desvantagens que tal proposta
pode acarretar.
A vantagem que se apregoa baseia-se na janela do conhecimento, ou
seja, na premissa de que o cérebro é muito plástico
nos primeiros anos de vida. Por isso, quanto mais cedo a criança
for exposta às informações, mais depressa aprenderá.
No entanto, em termos de aquisição da linguagem, o ideal
é aprender primeiro a língua materna, ser alfabetizado
nessa língua e, depois, aprender duas ou três línguas.
O problema é que, atualmente, vivemos a síndrome do
apressamento infantil. Desde muito cedo, as crianças têm
uma agenda mais sobrecarregada do que a de muitos adultos e acabam
apresentando dificuldades não de aprendizagem, mas de “ensinagem”.
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