Diagnóstico

Drauzio – Como é
feito o diagnóstico de dislexia?
Salomão Schwartzman – Hoje se sabe que
a dislexia está associada a algumas alterações
do cérebro e precisa ser diferenciada de outros distúrbios.
Dizer que um indivíduo é disléxico é deixar
claro que ele não é deficiente mental, não tem
transtorno de déficit de atenção, nem é
portador de quadro emocional ou psicológico que interfira no
aprendizado. E mais: que foi exposto à alfabetização
na faixa de idade adequada e freqüenta uma escola também
adequada às suas necessidades.
De certa forma, o diagnóstico de dislexia é feito por
exclusão. Por isso, quando a criança é levada
ao consultório com a queixa de vai mal na escola, antes de
afirmar que é disléxica, é preciso descartar
uma série de distúrbios que ela não tem. Por
exemplo: deficiências visuais e auditivas interferem negativamente
na aprendizagem e podem ser tão sutis que as pessoas ao redor
não percebem. É óbvio que ninguém é
disléxico porque precisa usar óculos.
Drauzio – Com que freqüência
é feito o diagnóstico de dislexia?
Salomão Schwartzman – Houve uma época
em que todas as crianças com alguma dificuldade para aprender
a ler e a escrever eram classificadas como disléxicas até
prova em contrário. Como esse diagnóstico era infundado,
porque por trás do rótulo de dislexia podiam estar mascaradas
patologias mais graves como autismo, deficiência mental e surdez,
por exemplo, o termo dislexia praticamente foi banido da literatura
científica. Recentemente, porém, ele voltou a ser considerado
como importante para definir um distúrbio que merece atenção,
embora no Brasil o diagnóstico continue pouco freqüente.
Os profissionais preferem imaginar outras causas que não a
dislexia para a dificuldade de aprendizagem no âmbito da escrita
e da leitura.
Drauzio – Qual é a conseqüência
de a maioria dos disléxicos não ser identificada como
tal?
Salomão Schwartzman - Essas pessoas são
penalizadas na escola, porque exigem delas o mesmo rendimento dos
outros alunos. O disléxico não pode, por exemplo, fazer
uma prova escrita da mesma forma que os colegas. Isso tem de ficar
bem claro para a escola, que deve optar por outros recursos de avaliação.
Por outro lado, exigir que tome nota ou faça um ditado com
a mesma rapidez que fazem seus pares é propor um jogo com cartas
marcadas.
Portanto, é fundamental identificar o problema e encaminhar
o disléxico para um procedimento psicopedagógico ou
fonoaudiológico, a fim de tentar corrigir sua dificuldade.
Ao mesmo tempo, é preciso garantir-lhe permissão para
usar ferramentas que o torne igual aos outros, o que é muito
mais complicado do que parece. Há pouco tempo, atendi um adolescente
de 14 anos, muito inteligente, mas disléxico grave, com enorme
dificuldade para leitura, escrita e compreensão de textos.
Nunca foi reprovado, porque abandonou todas as atividades extracurriculares
- teatro, música, esporte - para dedicar-se exclusivamente
ao estudo, mas ainda assim o resultado não era muito bom. Como
estava bem adaptado socialmente e não queria ser transferido
de escola, propus que conversasse com os professores a respeito de
usar o corretor de texto do computador para fazer as tarefas. Mandei
também o diagnóstico com a minha sugestão para
a escola.
Dois dias depois, recebi um telefonema da orientadora pedagógica.
“Olhe, estou ligando a respeito daquele caso que você
avaliou. Sua sugestão é inaceitável para a nossa
escola. A classe tem vinte alunos, se ele puder usar o corretor de
texto, o que faremos com os outros?” Eu lhe perguntei, então,
se alguém naquela classe precisava de óculos. Ela me
respondeu que dois ou três usavam. Perguntei-lhe, então,
como agia nesse caso. Obrigava todos os outros a usarem óculos
ou não permitia que os dois ou três com problemas de
visão os usassem.
A tendência é as pessoas verem numa proposta como essa
uma facilidade a mais que se dá ao disléxico, quando,
na verdade, ela representa a única forma que tem para competir
em igualdade de condições com os colegas. Se um disléxico
tem dificuldade enorme em decorar tabuada, mas o raciocínio
necessário para resolver os problemas, que mal há em
permitir que use a máquina de calcular? Não é
isso que ele vai fazer a vida inteira?
Nossas escolas resistem em admitir tais possibilidades. No exterior,
porém, já existem faculdades que aceitam o uso do corretor
de texto, porque o que interessa é saber se o aluno disléxico
sabe a matéria e não a forma como escreve.
Drauzio – O disléxico pode sair-se
muito bem quando faz uma prova oral?
Salomão Schwartzman – Pode sair-se perfeitamente
bem e é nisso que se deve basear sua avaliação.
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