Dislexia
O que é?
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Dr. José Salomão Schwartzman é neuropediatra. Formado na Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo, especializou-se em Neurologia Infantil no Hospital for Sick Children, em Londres, e é professor titular de pós-graduação em Distúrbios do Desenvolvimento na Universidade Presbiteriana Mackenzie.


O que é

DrauzioO que é dislexia?
Salomão Schwartzman – A palavra dislexia significa dificuldade de leitura. Atualmente, é empregada para designar um grupo de pessoas que, por condição congênita, nasce com dificuldade muito grande de decodificar o estímulo escrito ou o símbolo gráfico. Apesar de inteligentes e de terem a oportunidade de freqüentar escolas adequadas, essas pessoas não aprendem a ler e a escrever como se esperaria que o fizessem.

Drauzio - Quando você diz que não conseguem decodificar o símbolo gráfico, significa que os disléxicos lêem a palavra gato, sabem o que é um gato, podem ter um gato de estimação em casa, mas não relacionam o que está escrito com aquele animal doméstico?
Salomão Schwartzman – Isso também acontece. No entanto, é de extrema importância destacar que existem graus diferentes de gravidade de dislexia. Há um grau tão grave que os franceses chamavam de cegueira verbal congênita, porque o indivíduo chegava à vida adulta incapaz de entender uma palavra, por mais simples que fosse. Ou seja, esses disléxicos olhavam para a escrita da língua-mãe, como eu olharia para uma palavra grafada em russo, uma vez que não entendo esse idioma e não conseguiria atribuir nenhum sentido aos riscos e pontos que tenho diante e mim.
Felizmente, essa não é a forma mais comum de dislexia. A mais comum é a pessoa apresentar uma inabilidade para decifrar o código, o que acaba fazendo, mas com dificuldade.
Há o mito de que os disléxicos são mais inteligentes do que os não-disléxicos. Einstein, Leonardo da Vinci, Shakespeare mostram que, apesar da dislexia, eram tão competentes que conseguiram fazer o que fizeram. A verdade é que o fato de o indivíduo ser disléxico não impede que tenha vida útil. O importante é que seja identificado como tal e por isso não aprende de acordo com o que se espera para não ser rotulado de preguiçoso, burro, deficiente.

Drauzio Que tipo de dificuldade apresenta o indivíduo com um quadro mais leve de dislexia?
Salomão Schwartzman – É aquele sujeito que teve um pouco mais de dificuldade para ser alfabetizado, mas conseguiu, embora siga pela vida adulta confundindo “s” com “ç” e fazendo algumas inversões quando escreve ou quando lê. Ele troca “p” por “b”, “m” por “n”, uma sílaba pela outra. Por exemplo, em vez de “gato” escreve “toga” sem dar-se conta do que fez. Para o disléxico leve, o corretor de texto representou enorme benefício.

Drauzio O disléxico pode apresentar outras dificuldades além das que já foram citadas?
Salomão Schwartzman – Embora a dificuldade maior seja para a leitura e a escrita, existem outras que podem estar associadas. Uma das mais freqüentes é a dificuldade de entendimento de um texto. Há disléxicos que lêem até razoavelmente bem, mas têm dificuldade enorme para entender o que estão lendo. Outros não conseguem decorar a tabuada, não porque apresentem algum distúrbio de memória, mas porque têm dificuldade seletiva para esse tipo de símbolo matemático. Não decoram a tabuada, mas conseguem resolver problemas e decorar uma poesia.

Drauzio O que acontece com o disléxico, quando o distúrbio não é identificado?
Salomão Schwartzman – Ele vai desenvolvendo estratégias. Por exemplo, em vez de ler a palavra sílaba por sílaba como se faz normalmente, decora o formato e o tamanho da palavra e, quase que por adivinhação, encaixa-a dentro do contexto. Desse jeito, consegue ser até um leitor razoável.