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Dr. Cláudio Guimarães dos Santos é médico. Neurocientista da Universidade Federal de São Paulo, trabalha na reabilitação de pacientes com disfunções cognitivas.


Tratamento

Drauzio – Em que se baseia o tratamento que seu grupo está desenvolvendo?
Cláudio G. dos Santos –
Primeira medida: é feito o melhor levantamento possível das alterações que o indivíduo apresenta. Como disse Chico Buarque em uma de suas músicas, “Procurando bem todo o mundo tem bereba, só a bailarina que não tem”, pacientes com disfunções cognitivas raramente têm alterações isoladas. Em vista disso, um bom tratamento para dislexia fonológica pode ser desestabilizado por pequena alteração da memória ou de atenção que não foi detectada numa avaliação prévia.
Segundo: quando possível, investigam-se os aspectos pré-mórbidos do paciente, suas características constitucionais, o ambiente sócio-cultural em que foi criado, seus interesses e motivações. Todo o tratamento e mesmo a avaliação precisam ter como base o aspecto motivacional. Tratamento de disfunção cognitiva não pode ser maçante.

Drauzio Manter o paciente motivado é fundamental para o resultado do tratamento.
Cláudio G. dos Santos - No passado, as técnicas eram muito repetitivas. Hoje, têm que ser motivacionalmente relevantes. O paciente precisa estar motivado para aderir ao tratamento. Vivemos na época do controle-remoto. O programa está chato, aperta-se um botão e procura-se outro. Ainda mais a criança, que é muito espontânea, honesta e sincera, se não estiver interessada, logo deixa claro seu desinteresse e insatisfação.

DrauzioAlém da motivação, que outras estratégias se tornam necessárias?
Cláudio G. dos Santos - São pré-requisitos básicos também o acompanhamento contínuo e periódico do processo e a interação com a equipe que faz a reabilitação na escola. Aliás, o papel da escola é muito importante na detecção e tratamento dessas lesões. Não se pode esquecer de que freqüentemente é a professora quem levanta a questão da dificuldade e encaminha a criança para diagnóstico específico.
Por outro lado, a escola precisa estar aberta para adequar-se e interagir com a equipe que está tratando da criança, no sentido de alterar rotinas, fazer avaliações orais, etc.
No tratamento das crianças com dislexia é fundamental harmonizar o trinômio: escola, indivíduo e família.

Drauzio – Se considerarmos a qualidade de ensino de muitas escolas públicas, provavelmente grande parte dessas crianças acaba não sendo alfabetizada e desiste de estudar.
Cláudio G. dos Santos – Esse é outro problema. Há certo modismo em considerar disléxicas todas as crianças que não conseguem ser alfabetizadas antes de avaliar se o professor é bom e a sala de aula adequada, se a criança está bem alimentada e recebendo os estímulos propícios para aprender a ler e a escrever. Classificar as dificuldades como decorrentes de dislexia discursiva ou fonológica só é possível se ocorrerem apesar das condições ótimas de ambiente e de escolarização. Portanto, quando a qualidade de ensino deixa a desejar como ocorre em determinadas áreas de São Paulo e do Brasil, fica extremamente difícil falar em dislexia.