Fatores de risco

Drauzio – Essa
devastação que acontece na vida das pessoas associadas
à idade é uma coisa que assusta, especialmente aqueles
que vão se aproximando da faixa etária em que as doenças
são mais freqüentes.
Sabemos de muitas coisas que podem ser feitas para nos proteger em
relação à velhice. Não é que a
gente faça, mas sabemos que é possível evitar
problemas cardíacos se não fumarmos, se mantivermos
uma dieta saudável, praticarmos exercícios físicos,
etc. Em relação aos problemas de cognição,
parece não haver muita defesa. O que pode ser feito para evitar
a perda completa da memória, ou acabar a vida olhando para
uma parede sem saber onde nos encontramos? No trabalho de vocês
surge uma esperança muito grande de podermos exercer algum
impacto na evolução desses casos? Gostaria de que você
comentasse os resultados obtidos e em que grupo encontraram mais quadros
demenciais?
Cássio Bottino – Vou me referir mais
aos resultados de São Paulo, pois já foram completamente
analisados. Em Ribeirão Preto, a análise ainda não
terminou.
Alguns dos resultados que obtivemos eram bastante esperados. Correspondem
a fatores de risco bem estabelecidos na literatura.
Primeiro achado: ficou evidente que quadros demenciais ocorrem com
mais freqüência em pessoas com mais idade. Quanto mais
velhas eram, mais distúrbios cognitivos apresentavam. Na faixa
dos 90 anos, praticamente 50% dos indivíduos avaliados eram
suspeitos de ter demência, uma porcentagem muito grande, portanto.
É óbvio que nesse estudo, assim como em todos os estudos
realizados seguindo os mesmos critérios, o número de
indivíduos com mais de 90 anos era bem menor e essa é
uma variável que precisa ser considerada.
Segundo achado: pessoas com baixa escolaridade correm risco maior
de desenvolver quadros demenciais. O número de suspeita de
demências entre analfabetos foi bem maior do que entre os que
tinham mais de nove anos de escolaridade. Isso reforça a hipótese
de que, assim como acontece com os outros órgãos, a
estimulação prévia faz com que as pessoas tenham
uma reserva funcional do cérebro. Outro ponto importante é
que, apesar de essa reserva ir diminuindo ao longo da vida, quanto
mais a pessoa tiver acumulado, mais terá para perder. Mesmo
quando a carga genética é grande e desfavorável,
a estimulação cerebral anterior retarda o aparecimento
de quadros demenciais.
Terceiro achado: quanto mais baixo o nível socioeconômico,
maior número de casos de demência. Para avaliar o nível
socioeconômico, levamos em conta duas variáveis: a divisão
em cinco classes (de A a E) e a localização geográfica
dos subdistritos: Jardins Paulista e América (nível
mais alto), Vila Sônia e Rio Pequeno (nível intermediário)
e Brasilândia (nível inferior). O resultado obtido provavelmente
está associado não só à escolaridade dos
participantes, que varia conforme a região da residência,
mas também a outros aspectos, como cuidados com a saúde
e facilidade de acesso aos serviços de saúde mais freqüente
nas classes mais favorecidas.
Drauzio – Essa diferença entre os
níveis socioeconômicos se mantém quando se isola
o aspecto da escolaridade?
Cássio Bottino – Ainda não temos
esse dado. No entanto, a primeira análise deixou evidente a
relação entre nível socioeconômico e escolaridade,
ou seja, pessoas com maior nível de escolaridade moram em bairros
melhores. Esses dados sociodemográficos confirmaram algumas
de nossas hipóteses e são importantes porque refletem
uma realidade sobre a qual ainda não havia informações
sistematizadas. A mesma avaliação feita em São
Paulo está sendo feita em Ribeirão Preto e parece que
os resultados serão parecidos.