Demência em idosos
Objetivo da pesquisa com idosos
Seleção dos participantes
Método aplicado
Prevalência e sintomas
Fatores de risco
Estilo de vida
Conclusões da pesquisa






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Dr. Cassio Bottino é médico psiquiatra. Trabalha no Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo e conduziu um trabalho de pesquisa com cerca de 2.700 idosos para verificar a prevalência de distúrbios cognitivos nessa faixa etária.


Fatores de risco


Drauzio Essa devastação que acontece na vida das pessoas associadas à idade é uma coisa que assusta, especialmente aqueles que vão se aproximando da faixa etária em que as doenças são mais freqüentes.
Sabemos de muitas coisas que podem ser feitas para nos proteger em relação à velhice. Não é que a gente faça, mas sabemos que é possível evitar problemas cardíacos se não fumarmos, se mantivermos uma dieta saudável, praticarmos exercícios físicos, etc. Em relação aos problemas de cognição, parece não haver muita defesa. O que pode ser feito para evitar a perda completa da memória, ou acabar a vida olhando para uma parede sem saber onde nos encontramos? No trabalho de vocês surge uma esperança muito grande de podermos exercer algum impacto na evolução desses casos? Gostaria de que você comentasse os resultados obtidos e em que grupo encontraram mais quadros demenciais?

Cássio Bottino – Vou me referir mais aos resultados de São Paulo, pois já foram completamente analisados. Em Ribeirão Preto, a análise ainda não terminou.
Alguns dos resultados que obtivemos eram bastante esperados. Correspondem a fatores de risco bem estabelecidos na literatura.
Primeiro achado: ficou evidente que quadros demenciais ocorrem com mais freqüência em pessoas com mais idade. Quanto mais velhas eram, mais distúrbios cognitivos apresentavam. Na faixa dos 90 anos, praticamente 50% dos indivíduos avaliados eram suspeitos de ter demência, uma porcentagem muito grande, portanto. É óbvio que nesse estudo, assim como em todos os estudos realizados seguindo os mesmos critérios, o número de indivíduos com mais de 90 anos era bem menor e essa é uma variável que precisa ser considerada.
Segundo achado: pessoas com baixa escolaridade correm risco maior de desenvolver quadros demenciais. O número de suspeita de demências entre analfabetos foi bem maior do que entre os que tinham mais de nove anos de escolaridade. Isso reforça a hipótese de que, assim como acontece com os outros órgãos, a estimulação prévia faz com que as pessoas tenham uma reserva funcional do cérebro. Outro ponto importante é que, apesar de essa reserva ir diminuindo ao longo da vida, quanto mais a pessoa tiver acumulado, mais terá para perder. Mesmo quando a carga genética é grande e desfavorável, a estimulação cerebral anterior retarda o aparecimento de quadros demenciais.
Terceiro achado: quanto mais baixo o nível socioeconômico, maior número de casos de demência. Para avaliar o nível socioeconômico, levamos em conta duas variáveis: a divisão em cinco classes (de A a E) e a localização geográfica dos subdistritos: Jardins Paulista e América (nível mais alto), Vila Sônia e Rio Pequeno (nível intermediário) e Brasilândia (nível inferior). O resultado obtido provavelmente está associado não só à escolaridade dos participantes, que varia conforme a região da residência, mas também a outros aspectos, como cuidados com a saúde e facilidade de acesso aos serviços de saúde mais freqüente nas classes mais favorecidas.

Drauzio Essa diferença entre os níveis socioeconômicos se mantém quando se isola o aspecto da escolaridade?
Cássio Bottino – Ainda não temos esse dado. No entanto, a primeira análise deixou evidente a relação entre nível socioeconômico e escolaridade, ou seja, pessoas com maior nível de escolaridade moram em bairros melhores. Esses dados sociodemográficos confirmaram algumas de nossas hipóteses e são importantes porque refletem uma realidade sobre a qual ainda não havia informações sistematizadas. A mesma avaliação feita em São Paulo está sendo feita em Ribeirão Preto e parece que os resultados serão parecidos.