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Dr. Marco Aurélio Dias, falecido recentemente,
era cardiologista e trabalhava no Instituto Dante Pazzanese, um
dos maiores centros de cardiologia do Estado de São Paulo. No livro
"Quem Ama não Adoece", dirigido ao público leigo, ele discutiu a
influência das emoções nas doenças humanas, especialmente nas doenças
do coração.
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Papel do estresse nos ataques
cardíacos

Drauzio - Ninguém discute que fatores como diabetes, cigarro,
vida sedentária, colesterol elevado, influem na ocorrência
dos ataques cardíacos. De acordo com sua longa experiência
clínica, que força têm as emoções
nessa patologia?
Marco Aurélio Dias - Acredito que desempenham papel preponderante,
embora nos tratados de medicina o estresse apareça como fator
secundário, provavelmente porque estudos epidemiológicos
não conseguem identificá-lo nem quantificá-lo.
Pode-se medir o valor do colesterol, a pressão arterial e a dosagem
de açúcar no sangue, ou detectar uma alteração
no eletrocardiograma. Como medir a alegria ou a tristeza de alguém,
como quantificar sua emoção?
Na minha opinião, se considerarmos o sentido amplo do conceito
e nele englobarmos sentimentos como intranqüilidade interior, sofrimento
emocional, infelicidade, o estresse é o principal fator de risco
para as doenças do coração. Quem está tenso
volta a fumar, tem menos ânimo para as atividades físicas,
come mais para compensar a ansiedade, fica obeso e eleva o colesterol.
Além disso, a pressão alta tem clara vinculação
com a intranqüilidade e a agressividade contida que se volta contra
a própria pessoa.
Drauzio - Depois de tanta
experiência acumulada, quando alguém chega para uma avaliação
cardiológica, você consegue quantificar, pelo menos grosseiramente,
seu nível de estresse?
Marco Aurélio Dias - Há dois tipos de
pessoas: as que demonstram, no primeiro contato, seu nível de
ansiedade e sofrimento, e as introvertidas, que não se abrem.
O tempo e a prática, porém, encarregam-se de fazer aflorar
a dor escondida.
Os anos de clínica mostraram-me que existem duas principais fontes
de sofrimento: a família e o trabalho. Incluam-se, no trabalho,
as dificuldades econômicas. A importância desses componentes,
ou melhor dizendo, a importância do sofrimento interior no aparecimento
da doença orgânica constitui a essência da Medicina
Psicossomática.
Para melhor avaliação, o primeiro passo é incentivar
o paciente a falar bastante a fim de que sua queixa fique bem caracterizada.
Em seguida, ele deve ser minuciosamente examinado. Depois, é
preciso saber de sua vida, das suas dores e amores, para tentar descobrir
o que há por trás dos sintomas e da doença. E sempre
existe alguma coisa.
É lógico que as pessoas apresentem diferentes graus de
defesa para expor seus dramas pessoais. Talvez por estigma cultural,
quem procura o cardiologista não está preparado para abrir
a alma. Isso condiz com os consultórios de psiquiatria. Portanto,
não é de estranhar que haja certa resistência no
início, especialmente nos homens. As mulheres falam de suas emoções
e de seus padecimentos com mais facilidade. Os homens, não. Para
eles tudo vai bem e o que sentem não pesa.
Há uma estratégia que ajuda a dimensionar a força
das emoções. Pergunta-se, numa escala de zero a dez, que
nota cada paciente daria para seu nível de felicidade. Em geral,
as notas ficam entre 6 e 8. Nunca encontrei alguém que se desse
10. Esse número serve de gancho para identificar o que falta
para chegar ao 10. Quando começam a falar, não é
raro perceber que as pessoas foram condescendentes em sua avaliação.
Não lhes faltaria motivos para uma nota bem mais baixa.
Seria exagero e radicalismo afirmar que a emoção é
responsável por todos os males. As doenças são
multifatoriais. Características genéticas, ambiente, fatores
de risco influem, mas o componente psíquico-emocional tem importância
relevante, especialmente na doença coronariana que leva ao infarto
e à angina.
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