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Dr. Marco Aurélio Dias, falecido recentemente,
era cardiologista e trabalhava no Instituto Dante Pazzanese, um
dos maiores centros de cardiologia do Estado de São Paulo. No livro
"Quem Ama não Adoece", dirigido ao público leigo, ele discutiu a
influência das emoções nas doenças humanas, especialmente nas doenças
do coração.
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Mecanismo do estresse

Drauzio - Pode-se afirmar, então, que sem estresse o homem
não teria sobrevivido?
Marco Aurélio Dias - Nem o homem, nem qualquer outro animal.
No entanto, temos de comparar o que acontecia nos tempos pré-históricos,
quando o comportamento dos homens e dos outros animais era semelhante,
com o que ocorre atualmente. Costumo dizer que o inimigo mudou muito,
de exterior passou a interior, e que o mecanismo acionado para enfrentar
as ameaças tem um componente subjetivo maior do que a realidade
objetivamente representa.
Há milhares de anos, quando o homem primitivo saía da
caverna e topava com um tigre faminto, a ameaça era real, concreta.
Hoje, ao sair de casa apressado para um compromisso importante, se não
encontra as chaves do carro, o mecanismo físico desencadeado
é exatamente o mesmo, embora seja desproporcional ao estímulo.
Ora, o que é nocivo no estresse? É a perpetuação
desse sistema de alarme, não as ocasiões agudas de raiva
ou de medo que, muitas vezes, se resolvem por si mesmas. Prejudicial
é o indivíduo permanentemente tenso, ansioso, angustiado,
pronto para uma batalha que nunca se concretiza. Isso desgasta as artérias,
faz subir a pressão arterial, compromete o coração
e responde por longa série de outras doenças.
Drauzio - O homem que saía da caverna e dava
de cara com o tigre, era obrigado a tomar uma atitude: ou voltava para
a caverna, ou enfrentava o tigre, ou corria feito louco. Hoje, quando
não encontra a chave do carro e está atrasado, fica nervoso,
mas não toma atitude alguma que ajude a descarregar seu estresse.
Entretanto, convenhamos, seu nervosismo há de ser infinitamente
menor que o do homem pré-histórico diante do tigre ameaçador.
Como se explica esse raciocínio?
Marco Aurélio Dias - Quando o psiquismo do homem
percebe uma ameaça a seu equilíbrio que, no entender do
organismo, põe em risco sua vida, desencadeia um sistema de alarme.
Suponha um gato encurralado num canto por um cão. É certo
que seu psiquismo reconhece o risco e, em questão de segundos,
automaticamente, por ordem do cérebro, substâncias chamadas
de catecolaminas (a mais conhecida delas é a adrenalina) são
lançadas na corrente sanguínea para preparar o organismo
para enfrentar o perigo.
Como reage o gato? Seus olhos ficam maiores e as pupilas mais dilatadas
para que enxergue melhor o inimigo. Seus pêlos eriçam-se
para que seu aspecto torne-se mais assustador. O coração
bate mais rápido e mais forte, a pressão arterial sobe
para que haja energia disponível para a luta ou para a fuga.
O sangue resultante do aumento da freqüência cardíaca
será desviado da região central do corpo para as extremidades,
para as patas do animal, porque o organismo sabe o quanto dependerá
delas naquele momento. Os esfíncteres (pequenos anéis
musculares que regulam a passagem do alimento do esôfago para
o estômago, ou a saída das fezes e da urina) serão
liberados, primeiro para que o odor da secreção assuste
o inimigo e, depois, para deixar o animal mais leve durante o esforço
físico a que será submetido.
Diante de situações de estresse, o mecanismo físico
e bioquímico do homem é idêntico ao do gato. Por
isso, a gente se arrepia quando leva um susto ou empalidece de raiva
ou de medo. Diante do perigo, nosso coração dispara e
a pressão arterial sobe. Há pessoas que vomitam ou têm
vontade de urinar, quando sofrem o impacto de um desgosto. Talvez parta
daí a antiga expressão “borrou-se de medo”
que se aplica a esses casos .
É importante insistir, porém, que existem enormes diferenças
entre nossa reação de estresse e a do animal. A primeira
é o bloqueio da reação. O gato investe contra o
cão ou, o mais provável, foge dele. De qualquer forma,
sua musculatura vai ser ativada. O homem permanece estático.
A segunda é a capacidade de relaxar. Livre do enfrentamento com
o cão, o gato passeia pelos telhados ou espreguiça-se
ao sol. O homem continua tenso.
Por isso, defendo que se faz necessário investir na reeducação
interior. Para exemplificar, vejamos o que habitualmente ocorre num
congestionamento de trânsito. Muitas pessoas assumem atitudes
irracionais. Metem a mão na buzina diante de um sinal mecânico
que não se abala com a impaciência, pressionam os outros
e a si mesmas por alguns metros de asfalto à frente ou uns segundos
de vantagem. Expõem-se a acidentes, quando a lógica aconselharia
que se distraíssem ouvindo música ou o noticiário,
observassem as pessoas ao redor ou reavaliassem seus valores de vida.
Se assim agissem, sem dúvida, seu prejuízo seria menor.
Diante disso, cabe a cada um decidir como deve reagir à pressão
externa.
Não há como negar a insegurança das grandes cidades,
as incertezas econômicas, a ameaça de desemprego, a pressão
de consumo. As dificuldades existem, mas é o modo de encará-las
que pode resultar em dose maior ou menor do indesejável estresse
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