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Dr. Elias David Neto é médico nefrologista, responsável pelo setor de transplantes de rins do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo e membro do corpo clínico do Hospital Sírio-Libanês.


Focalizando o tratamento

Drauzio Quanto tempo uma pessoa pode manter-se fazendo diálise?
Elias David Neto – Teoricamente, pode fazer diálise por tempo indeterminado. Hoje, é possível escolher entre fazer diálise por toda a vida ou fazer um transplante de rim. É claro que se a opção for manter-se em diálise, ela precisa estar comprometida com o processo por anos e anos e não apenas por pelo período em que aguarda o transplante.

DrauzioQue orientação você daria para quem vai começar a fazer diálise?
Elias David Neto – Eu diria para esquecer tudo de mal que a pessoa ouviu falar sobre a diálise em si e os centros de diálise. No Brasil, a legislação obrigou os centros de diálise a adaptar-se a determinadas exigências. Você entra num centro qualquer mantido pela Previdência Social e se assusta com a sofisticação. A água fornecida pelas empresas é tratada e de qualidade excelente, os equipamentos são modernos.
Diria, portanto, que a pessoa não deve ter medo e que deve procurar adaptar-se ao tratamento, pois ele lhe permitirá levar vida quase normal, quase igual a que terá depois do transplante.

DrauzioO que ajuda a pessoa a adaptar-se a essa nova vida?
Elias Davis Neto – Comparo a diálise com os óculos. Quem usa óculos, de vez em quando, vai ao médico para acertar o grau das lentes, mas todos os dias precisa tomar certos cuidados. Embora eles possam incomodar ou mesmo machucar um pouquinho, o conforto que oferecem é tão grande que a pessoa se esquece de tirá-los quando vai dormir ou tomar banho. Em vez de inimigos, eles são parceiros.
A diálise deve ser encarada do mesmo modo. O paciente deve conversar com seu médico para descobrir como pode tornar a diálise que vai fazer mais eficiente e menos perceptível. Conheço pessoas que, na empresa onde trabalham, ninguém sabe que fazem diálise. Quando passam por um transplante, a surpresa é geral. “Como, você foi transplantado?” e a resposta é: “Fiz diálise dois anos enquanto esperava por um rim compatível”.

DrauzioFico impressionado como as pessoas conseguem parar quatro horas, três vezes por semana, para fazer diálise.
Elias Davis Neto – No nosso centro de diálise, temos um sistema de TV que ajuda a distrair o paciente. Em geral, as pessoas ouvem música, lêem, executam uma tarefa ou dormem. Tudo depende de como o indivíduo se adaptou ao sistema e ao horário que escolheu. Se faz a diálise à noite ou bem cedinho de manhã, talvez prefira dormir um pouco. De alguma forma, cada um procura tirar melhor partido das horas que fica em tratamento. Hoje, com o telefone celular as pessoas podem fazer ligações enquanto estão na máquina de diálise e com os computadores portáteis podem escrever e trabalhar.