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Dr. Elias David Neto é médico nefrologista, responsável pelo setor de transplantes de rins do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo e membro do corpo clínico do Hospital Sírio-Libanês.


Hemodiálise

Drauzio – Você poderia explicar como é feita a diálise?
Elias David Neto –
Existem dois tipos de diálise: a diálise peritoneal e a hemodiálise. O mais comum é a hemodiálise, que exige uma preparação anterior no braço para tornar o vaso mais resistente à passagem do sangue, que é retirado pela artéria, passa pelo filtro da máquina de diálise e é devolvido pela veia. O volume que fica fora do corpo a cada momento é bem pequeno, 150ml (temos aproximadamente cinco litros), só que a velocidade é muito grande, o que permite filtrar grandes quantidades. Num processo contínuo, o sangue passa pelo filtro que retira as toxinas e volta depurado para diluir-se nos cinco litros que permaneceram no organismo.

Drauzio
Quantas horas dura uma sessão de hemodiálise?
Elias David Neto – Em geral, de três a quatro horas. Enquanto o sangue é filtrado, retira-se também o excesso de água e sal que o paciente reteve. Quando os rins não funcionam, os líquidos e o sal ingeridos não são eliminados. É bom lembrar que não existe sal sem água nem água sem sal no organismo. Quer dizer, se o indivíduo ingerir nove gramas de sal numa refeição, automaticamente será obrigado a tomar um litro de água. Por isso, entre uma sessão e outra de hemodiálise, o paciente com insuficiência renal crônica ganha dois, três quilos de peso, na verdade, dois ou três quilos de água e sal que ficaram retidos.

Drauzio A máquina de hemodiálise funciona como um rim artificial para esses pacientes.
Elias David Neto – Funciona como um rim artificial planejado apenas para filtrar o sangue, porque os rins têm também a capacidade de produzir hormônios e vitamina D, controlar a pressão arterial e mandar a medula óssea fabricar sangue. Por isso, quase 100% dos pacientes com insuficiência renal têm anemia não por falha da fábrica de sangue, mas por falha na ordem para fabricá-lo. No entanto, essas deficiências podem ser corrigidas com medicamentos sob a forma de comprimidos ou injeções, para que o indivíduo tenha a melhor qualidade de vida possível.

DrauzioQuantas sessões por semana o paciente deve fazer?
Elias David Neto – Normalmente são feitas três sessões por semana no mínimo. Atualmente, já existem centros no mundo que fazem hemodiálises noturnas todos os dias enquanto o paciente dorme no próprio centro ou em sua casa.

Drauzio Esse número de sessões semanais não restringe muito a vida pessoal? Fico imaginando como faz a pessoa obrigada a passar quatro horas pelo menos três vezes por semana num centro de diálise se quer viajar, por exemplo.
Elias David Neto – Há dois aspectos que não podem ser esquecidos. Nós não prescrevemos diálise por gosto. Prescrevemos, porque a outra alternativa é não viver.
A pessoa faz diálise enquanto espera por um transplante de rins. Nesse período, tem que abrir mão de algumas coisas. Entretanto, é possível conciliar uma série de atividades com o tratamento, fazendo as sessões bem cedo ou muito tarde.
Em relação às viagens, hoje existem centros de hemodiálise em qualquer lugar. Existem em navios e em hotéis. Há até um guia de turismo com diálise, indicando os lugares do mundo em que o serviço está à disposição. No Brasil, há uma rede assistida pela Previdência Social a serviço dos pacientes.

Drauzio A pessoa quer visitar um parente que mora distante. Ela consegue fazer diálise no lugar onde ele vive?
Elias David Neto – Isso se chama diálise em trânsito. O centro da cidade de origem avisa com antecedência o centro da cidade a que a pessoa se dirige e, havendo vaga disponível, ela pode visitar os parentes porque estará garantida a continuidade do tratamento por conta da Previdência Social.