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Dr. Elias David Neto é médico nefrologista, responsável pelo setor de transplantes de rins do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo e membro do corpo clínico do Hospital Sírio-Libanês.


Perda da função renal

Drauzio – Os rins são órgãos altamente eficientes na filtração.Você disse que as diálises só são indicadas quando eles atingem menos de 10% de sua capacidade funcional e que a perda é lenta e gradativa. Isso não provoca nenhum sintoma?
Elias David Neto -
É importante dizer que as doenças renais acometem sempre os dois rins e que a perda de sua função é realmente lenta e progressiva. Lembrar que temos um milhão de unidades funcionais em cada um desses órgãos e que elas são independentes ajuda a compreender o processo. É como se numa fábrica existissem um milhão de máquinas, cada uma capaz de produzir, por exemplo, uma camisa inteirinha por dia. Portanto, um milhão de máquinas funcionando produziriam um milhão de camisas diariamente. Vamos imaginar que algumas dessas máquinas tenham deixado de funcionar. Novecentas máquinas produzirão novecentas camisas porque uma não compromete o desempenho da outra. Assim é no organismo. Com um número reduzido de unidades renais, é possível manter o equilíbrio metabólico e o indivíduo não percebe que está perdendo a função renal a não ser quando ela cai para mais ou menos 30% e aparecem sintomas como pressão alta e necessidade de urinar durante a noite porque os rins perderam a capacidade de armazenar a urina. Com a bexiga cheia, a pessoa passa a acordar freqüentemente para ir ao banheiro.

Drauzio
Em média, quantas vezes por noite?
Elias David Neto – Em geral, uma ou duas vezes por noite, mas todas as noites impreterivelmente. Vale lembrar que à noite liberamos um hormônio que faz a urina ficar bem concentrada (por isso, os laboratórios pedem a primeira urina da manhã para exame) a fim de poupar água, porque ficaremos várias horas sem bebê-la, e para evitar que o sono seja interrompido pela bexiga cheia.
Essa capacidade de concentrar a urina é uma das primeiras funções que o rim perde. O indivíduo começa a excretar urina mais diluída e acorda com mais freqüência do que normalmente fazia. Depois, aparece o inchaço e os exames revelam, entre outras alterações, um pouco de anemia. Isso só acontece nos 30% de função remanescente. Antes, o quadro é absolutamente assintomático.