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Marcello Bronstein é médico endocrinologista, professor na Universidade de São Paulo.

Hereditariedade

Drauzio - O diabetes é uma doença hereditária?
Marcello Bronstein - O componente hereditário no diabetes tipo I e no tipo II difere bastante. A força da hereditariedade é mais flagrante no diabético tipo II. Sempre existe um parente bem próximo ou, às vezes, mais distante que apresentou a doença. Há alguns subtipos ou subgrupos típicos do tipo II em que o fator hereditário é matemático, um traço dominante. Basta que um dos pais tenha diabetes, para que a doença se manifeste em todos os filhos independentemente da idade que tenham.
No tipo I, a situação é outra. Sabemos, hoje, que se trata de uma doença auto-imune, isto é, em que de repente o organismo age como se o pâncreas fosse um corpo estranho e passa a destruí-lo. Em muitos casos, uma infecção por vírus pode desencadear o processo, que só ocorre quando há interação do agente externo com algumas características do sistema imunológico do indivíduo. Essa agressão auto-imune provoca a deposição de linfócitos no pâncreas que, aos poucos, perde sua função e deixa de fabricar insulina. Nesse caso, a hereditariedade entra como um fator indireto e bastante complexo do diabetes.

Drauzio - Qual o peso da genética na instalação do diabetes tipo II nos adultos?
Marcello Bronstein - Diabetes é uma doença multifatorial ou poligênica. Dessa forma, entre outras causas, existem diversos genes implicados no seu aparecimento. Como já dissemos, no do tipo II, história familiar de diabetes em apenas um dos lados da família é o suficiente para transmiti-lo para toda a prole. É o que se chama de herança dominante. Este caso extremo ou MODY – Maturity Onset Diabetis in the Young - justifica o aparecimento do tipo II em crianças, mesmo antes de surgir a atual epidemia.
Há, porém, outras formas menos claras de herança genética em que a doença não se manifesta em todos os membros da família.

Drauzio - Pode aparecer um caso de diabetes numa família que não tinha a história da doença?
Marcello Bronstein - É possível por duas razões distintas: porque realmente se trata do primeiro caso naquela família, ou porque a doença existia, mas não foi diagnosticada. O censo do diabetes realizado no Brasil demonstrou que 7% da população do país têm diabetes e que 50% deles desconhecem o fato.

Drauzio - Quer dizer que dos 12 a 13 milhões de diabéticos existentes no Brasil, entre 6 e 7 milhões não sabem que são portadores da doença? São diabéticos, têm açúcar aumentado no sangue, mas se consideram normais porque não apresentam sintomas?
Marcello Bronstein - Provavelmente não apresentam sintomas porque há várias gradações de diabetes. Pode ser brando, intermediário ou muito grave. Essas gradações não dependem exclusivamente do tipo de diabetes adquirido, mas do momento de vida que a pessoa atravessa. Por exemplo: uma pessoa com uma forma branda da doença, resolveu fazer uma viagem, comeu muito mais do que estava acostumada e engordou vários quilos. Essa mudança brusca de hábitos pode provocar o aparecimento da forma grave da doença e a pessoa entra em coma diabético. Isso não significa que, voltando à rotina, a doença não possa regredir.