Tratamento
Drauzio – Você recebe um adulto muito
agitado, com dificuldade de concentração, baixo rendimento
no trabalho e a cabeça girando com múltiplos problemas.
Ele conta que isso acontece desde a infância. Qual o primeiro
passo que se dá para começar o tratamento?
Mario Louzã – Fechado o diagnóstico
de TDAH, é preciso examinar se não existem outras doenças
associadas. Nos adultos, as mais freqüentes são ansiedade
e depressão e o tratamento vai depender de como esses fatores
combinam.
No adulto, o tratamento medicamentoso associado à abordagem
psicoterápica ajuda a controlar a doença. O mais comum
é prescrever psico-estimulantes (no Brasil há um único
medicamento com essa característica) e alguns antidepressivos.
Na criança, o tratamento é mais complexo e envolve freqüentemente
equipe multidisciplinar, pois requer também a aplicação
de medidas pedagógicas e comportamentais.
Drauzio – A medicação é
usada por quanto tempo?
Mario Louzã – Se o paciente é
uma criança, o ideal é acompanhar a evolução
do caso para ver se há melhora com o crescimento. Estudos mostram
que até a idade adulta os sintomas diminuem e que, em metade
delas, desaparecem espontaneamente. Se persistirem no adulto, provavelmente
o quadro está estabilizado.
Como não faz muito tempo que os adultos portadores de TDAH
estão sendo estudados, temos pouca informação
de como evoluem até os 70 ou 80 anos. No entanto, a hipótese
é que os sintomas continuam sempre os mesmos “pelo resto
da vida”. Desse modo, pode-se afirmar que o tratamento deve
ser mantido indefinidamente.
Drauzio – Os medicamentos disponíveis
para TDAH provocam efeitos colaterais?
Mario Louzã – De maneira geral, os efeitos
colaterais são leves e ocorrem no início do tratamento.
Depois, o organismo se ajusta e é boa a tolerância aos
medicamentos.
Drauzio – O paciente nota logo os efeitos
benéficos dos medicamentos?
Mario Louzã – Isso depende do medicamento
que está sendo usado. Geralmente, em algumas semanas, o paciente
percebe melhora na atenção e na capacidade de ficar
sentado. Percebe que passou a produzir melhor no trabalho e a não
cometer os erros que cometia antes. TDAH é uma doença
psiquiátrica cujo tratamento dá resultados bastante
satisfatórios nas crianças, adolescentes e adultos.
Drauzio – Não parece paradoxal tratar
uma pessoa hiperativa com remédios psico-estimulantes?
Mario Louzã – Soa paradoxal, mas atende
ao que se supõe ser o mecanismo da doença: a falta de
uma ação inibitória do sistema nervoso central
sobre algumas áreas. Portanto, quando se estimula a inibição,
aumenta o controle da atenção, da atividade motora e
da impulsividade.
Drauzio – Você disse que o tratamento
envolve uso de medicamentos e psicoterapia. Qual é o objetivo
da psicoterapia nesses casos?
Mario Louzã – Nos adultos, a psicoterapia
não visa exatamente à doença, mas à pessoa
que tem déficit de atenção e hiperatividade.
O que acontece freqüentemente com ela é que sua história
de vida é marcada por insucessos acumulados ao longo dos anos.
São falhas no dia-a-dia, mau desempenho na escola, repetência,
suspensões. Depois, vêm problemas no trabalho e na organização
das atividades. A longo prazo, isso gera um sentimento de fracasso
muito grande, faz cair a auto-estima e pode trazer dificuldades para
lidar com situações emocionais.