TDAH nos adultos

Drauzio – Você
recebe um adulto que se queixa de ser muito distraído e que
isso está atrapalhando sua vida. No entanto, o problema passou
despercebido na infância e adolescência. Como você
encaminha o diagnóstico nesse caso?
Mario Louzã – Essa é uma situação
bastante comum. Há pessoas com déficit de atenção
e hiperatividade que passam a vida toda sem terem sido diagnosticadas.
Dá para imaginar quantos obstáculos precisaram vencer
para chegar à universidade, por exemplo?
Em geral, as queixas dos adultos são as mesmas das crianças:
distração, dificuldade para concentrar-se, baixo rendimento
no trabalho, impulsividade. Agem sem pensar e depois se arrependem
do que fizeram.
O primeiro passo para o diagnóstico nessa faixa de idade é
tirar uma história, tentar obter o máximo possível
de dados sobre a infância da pessoa. É importante saber
se, na escola, a professora reclamava de sua indisciplina, se era
desorganizada, apresentava lições mal feitas, tinha
os cadernos soltos, bagunçados e o material em desordem.
Nem sempre é fácil conseguir tais informações.
Às vezes, a própria pessoa não tem lembrança
clara de como eram as coisas. Uma saída é recorrer a
informantes que lhe sejam próximos. Se os pais estão
vivos, podem ser fonte importante de consulta.
Para o diagnóstico, levam-se em conta também as queixas
atuais: o trabalho que não rende, a dificuldade para concentrar-se
na leitura de um texto mais longo ou realizar as tarefas do dia-a-dia,
o incômodo por ficar sentada numa reunião mais prolongada
ou monótona, a dificuldade para assistir a uma aula na faculdade
ou a um curso que exija concentração e permanência
numa posição constante. Tudo isso somado ao fato de
que se esquece dos compromissos e de pagar as contas. Delinear esse
conjunto de dados possibilita reconhecer um quadro de déficit
de atenção e hiperatividade no adulto.
Drauzio – Esses dados que você citou
são queixas que se ouvem muito no mundo moderno. As pessoas
reclamam que não rendem no trabalho, não se concentram
porque os estímulos são muitos e não têm
paciência para reuniões prolongadas. Como profissional,
o que lhe permite estabelecer a diferença entre o comportamento
que resulta das atribulações da vida e o que é
realmente patológico?
Mario Louzã – Existem de fato alguns
casos que estão no limite entre o que seria, digamos, o esperado
para a população adulta no momento e o patológico
que exige tratamento. Vale destacar que, no adulto, a dificuldade
e as queixas vêm da infância. Mais velho, quando o quadro
da doença é bem definido, ele se compara com seus pares
e percebe que os colegas fazem o mesmo trabalho na metade do tempo,
não esquecem a maioria dos compromissos, não atrasam.
Já ele é um atrasado contumaz, um desorganizado. A conta
está em cima da mesa, mas ele se esquece de levá-la
e perde o prazo do pagamento. Não são coisas que acontecem
de vez em quando. Acontecem sempre e passam a sensação
de fracasso constante, de rendimento inferior à real capacidade
de produzir.