Sintomas e diagnóstico

Drauzio – Em geral, as
crianças são travessas e desatentas. Como se estabelece
o limite entre a desatenção e inquietude próprias
da idade e o comportamento potencialmente patológico?
Mario Louzã – À medida que a
criança vai crescendo, aumenta o nível de exigência
sobre ela. No entanto, o típico é o transtorno de déficit
de atenção e hiperatividade (TDAH) ficar evidente quando
ela vai para a escola. A criança normalmente consegue ficar
sentada na carteira da sala de aula, prestar atenção
no que a professora fala, tomar nota, fazer exercícios e aprender
as lições. Já a hiperativa com déficit
de atenção não pára quieta e comete erros
por distração. Muitas vezes, fica evidente que ela sabe
a matéria, mas não acerta as repostas porque está
distraída.
Existem casos mais leves da doença que eventualmente podem
ser contornados apenas com medidas pedagógicas e há
os mais graves que exigem tratamento medicamentoso.
Drauzio – Quem percebe primeiro o problema?
Os pais em casa ou a professora na escola?
Mario Louzã – Para fazer o diagnóstico
de déficit de atenção e hiperatividade, os sintomas
precisam manifestar-se em dois ambientes distintos. Em geral, eles
ocorrem em casa e na escola. A mãe, que geralmente acompanha
a criança nos deveres de casa, percebe a agitação
e a demora para fazer as tarefas. A professora nota o mesmo comportamento
na escola. Por isso, pais e professores são bons informantes
para ajudar o médico que observa a criança no consultório.
Drauzio – O déficit de atenção
sempre começa na infância ou pode instalar-se mais tardiamente?
Mario Louzã – Por definição,
a criança já nasce com a doença, tanto que para
fazer o diagnóstico em outras fases da vida é preciso
investigar como foi a evolução da doença na infância.
O déficit de atenção e hiperatividade jamais
se inicia quando o indivíduo é adulto. Ao contrário.
Em geral, evolui com melhora dos sintomas, tanto que até alguns
anos atrás se acreditava que a doença desaparecia com
o crescimento. Hoje se sabe que, apesar de diminuírem o número
e a intensidade dos sintomas nos adolescentes e adultos, parte das
crianças continua com o problema por toda a vida e apresenta
as dificuldades decorrentes da doença.
É importante lembrar que, quando se fala hiperatividade, estamos
nos referido a dois sintomas agregados: a hiperatividade propriamente
dita e a impulsividade.
Drauzio – Você poderia explicar o
que isso significa?
Mario Louzã – Basicamente na criança,
a hiperatividade está ligada à motricidade, aos movimentos.
É a criança agitada, que não pára quieta
um segundo sequer, com o bicho carpinteiro, como dizem as pessoas.
Já a impulsividade se caracteriza pelo agir sem pensar. Crianças
hiperativas se machucam mais, sofrem mais acidentes porque são
intempestivas. Não têm paciência nenhuma, interrompem
quem está falando, intrometem-se na conversa alheia. Esse é
um sintoma que se manifesta também nos adolescentes e adultos.
Drauzio – Vocês falam déficit
de atenção/hiperatividade. Essas duas coisas estão
sempre associadas?
Mario Louzã – A síndrome tem
esses dois sintomas básicos. Pode predominar um deles, mas
em boa parte dos casos tanto o déficit de atenção
quanto a hiperatividade estão presentes.