Seleção natural

Drauzio – Partindo do pressuposto que existe uma arquitetura de sinapses entre os neurônios que se estabelece de forma diferente na mulher e no homem, é possível perceber como reagem as crianças pequenas diante de um estímulo estressante?
Salomão Schwartzman – Nunca pensei nisso, mas posso dizer que nos adultos havia diferença muito grande na forma de homens e mulheres reagirem ao estresse. Os homens eram mais sensíveis. Parece que isso está mudando. Por outro lado, doenças ligadas ao estresse – doenças cardiovasculares, hipertensão arterial - que acometiam tipicamente o sexo masculino, hoje, passam a ser de competência também das mulheres.
Embora reajam de forma diferente, curiosamente em aspectos que parecem irrelevantes como a maneira de dissipar o calor do corpo aquecido – as mulheres são mais intolerantes ao ar-condicionado –, as características parecem baseadas na estrutura biológica de cada sexo.
Drauzio – Henry Ford, um dos pioneiros da indústria automobilística, sem querer estabelecer um critério de valores, dizia que as mulheres tinham a característica de chorar no ambiente de trabalho, mas admitiam que não sabiam fazer uma coisa e estavam dispostas a aprender, enquanto os homens não admitiam a ignorância e faziam tudo errado.
Salomão Schwartzman – Essas diferenças são evidentes no dia-a-dia. É clássica a cena do casal perdido nas ruas de uma cidade, o marido dirigindo o automóvel e a mulher tentando localizar onde estão no mapa. Ela vira o mapa de cabeça para baixo e de um lado para o outro e ele não pede ajuda a terceiros. Talvez esse comportamento masculino esteja relacionado com a necessidade de ser superior, de não demonstrar fraqueza, que foi inculcada nele por conta dos milhões de anos em que tal atitude era absolutamente fundamental para a sobrevivência da espécie. Na época das cavernas, quem tinha inteligência espacial levava vantagem. Caso contrário, saía para caçar e não voltava trazendo comida. Podemos dizer que o homem acerta melhor o alvo hoje por seleção natural. Os que não acertavam na primeira tentativa eram devorados.
Também sobreviveram as mulheres que eram capazes de fazer várias coisas ao mesmo tempo. Elas ficavam na caverna tomando conta da prole, cuidando que algum animal não entrasse pela porta, avivando o fogo e vendo se estava escurecendo lá fora. Até a acuidade visual acabou diferente nos dois sexos. O campo visual da mulher é mais amplo na penumbra. Já o homem enxerga melhor sob luz intensa. Essas habilidades devem estar associadas ao passado de caçador e de guardiã da caverna.
Drauzio – Como dizia o geneticista Dobzanski, não há fenômeno biológico que não encontre explicação na evolução das espécies. Sem a seleção natural, nada teria lógica nem explicação.
Salomão Schwartzman – Fora desse contexto, fica difícil entender por que o cérebro dos homens e das mulheres funciona de maneira diferente.
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