Diagnóstico e orientações

Drauzio – Por tudo que
você disse, estabelecer um diagnóstico diferencial das
demências é muito importante.
Ricardo Nitrini – Quanto mais cedo o diagnóstico
for feito, melhor em muitos sentidos. Hoje, há grande preocupação
em buscar métodos para fazer o diagnóstico o mais depressa
possível. Mesmo para a doença de Alzheimer, cujos recursos
para tratamento ainda são pobres, o diagnóstico precoce
permite adotar uma série de medidas que retardam a dependência
total do indivíduo e mantém sua qualidade de vida por
mais tempo.
Drauzio – Como quem apresenta demência
acaba se tornando dependente dos familiares, qual a orientação
que você dá para as pessoas que têm um caso desses
na família?
Ricardo Nitrini – Tudo depende da fase em que
o paciente se encontra. Nas fases iniciais em que o distúrbio
principal é a memorização, a orientação
de um profissional de saúde pode ajudar bastante. Por exemplo,
se o paciente anotar na agenda todos os compromissos e atividades
do dia-a-dia, seu desempenho vai melhorar muito. Além dos remédios
que deve tomar, ele precisa aprender a conviver com a dificuldade
e a contorná-la.
Nas fases mais avançadas, quando se torna dependente, quem
precisa de orientação é a família. Ela
precisa saber como deve tratar esse indivíduo e como enfrentar
uma situação, muitas vezes, dramática. À
medida que a doença evolui, a orientação é
fundamentalmente de enfermagem visando ao tratamento de um paciente
crônico-dependente. São cuidados gerais em relação
à pele, ao funcionamento do intestino e da micção,
entre outros. Atualmente se considera que o acompanhamento desses
pacientes exige o apoio multidisciplinar de enfermeiras, psicólogos,
terapeutas ocupacionais que se encarregam de orientar a família
com informações que podem melhorar a qualidade de vida
dos pacientes.
Drauzio – Vejo esse problema com a maior
preocupação. Há famílias que não
têm condição de cuidar do parente que envelheceu.
São poucos e precisam trabalhar. Você acha que existe
infra-estrutura clínica para cuidar desses doentes que não
podem contar com apoio familiar?
Ricardo Nitrini – Lamentavelmente não
existe infra-estrutura para isso. O tratamento dessas pessoas fica
por conta da própria família. Nem na rede pública,
nem na de convênios, é dado atendimento aos portadores
de doenças degenerativas, o que na minha opinião é
um grande erro.
Hoje, as famílias estão cada vez menores e não
contam com número suficiente de pessoas que poderiam revezar-se
nos cuidados ao doente. Na grande maioria, são apenas um ou
dois filhos responsáveis pelo tratamento e custa caríssimo
manter o idoso numa instituição que se encarregue de
alimentá-lo, dar-lhe banho e oferecer-lhe os demais cuidados
necessários. Portanto, é preciso que a rede pública
e os serviços de saúde estejam informados. Esses pacientes
vão exigir cada vez mais atenção e assistência
a menos que se descubra, nos próximos anos, alguma coisa que
possa, se não impedir a ocorrência, pelo menos retardar
o aparecimento dessas doenças. A tendência atual é
que ela se manifeste por volta dos 75/85 anos. Se conseguirmos adiar
seu aparecimento por dez anos, teremos um número muito menor
de portadores de síndromes demenciais. Enquanto isso não
acontece, as entidades médicas, públicas e sociais,
têm de preocupar-se porque a prevalência dessas enfermidades
vai aumentar. Ao contrário do que acontecia antigamente, as
pessoas estão vivendo mais e tendo à disposição
recursos que as ajudam a vencer doenças que antes eram fatais.