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Dr. Ricardo Nitrini é médico neurologista. Trabalha no Hospital das Clínicas (USP) e é professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.


Demência vascular

Drauzio No passado, quando as pessoas apresentavam sinais de demência, diziam que elas estavam esclerosadas.
Ricardo Nitrini – O conceito de esclerose e esclerosado é antigo e queria dizer que o individuo era tão velho quanto suas artérias. Na verdade, se achava que a origem do fenômeno demencial era vascular, o que de fato pode acontecer.
Hoje se sabe que a demência vascular, depois do Alzheimer, talvez seja a causa mais importante de demência. Ela se caracteriza por múltiplos infartos que vão ocorrendo no cérebro ao longo da vida do indivíduo, que tem uma pequena isquemia, depois outra e mais outra. Elas vão se somando como que em degraus e estão associadas a uma história de declínio da competência cognitiva.

DrauzioO paciente tem uma crise e estabiliza, porém sempre num patamar mais baixo do que se encontrava antes.
Ricardo Nitrini – Exatamente. Às vezes, os infartos são grandes, evidentes, porque a pessoa fica com um dos lados do corpo paralisado, a boca torta. Às vezes, são pequenos episódios. O indivíduo não se levanta de manhã no horário habitual, passa o dia sonolento, mas vai melhorando e ninguém fica sabendo que a causa daquela indisposição foi uma pequena isquemia, um pequeno derrame cerebral.
É possível evitar a repetição desses episódios que podem ser causa de demência vascular com o controle dos níveis de colesterol e de glicemia, da obesidade, com a prática de atividade física e se a pessoa parar de fumar.
O sistema nervoso central tem capacidade de reorganizar-se depois de uma lesão. Não diria que o problema seja reversível, mas é tratável e há como interferir para que não progrida. Se não mais ocorrerem acidentes vasculares, o indivíduo se estabiliza e pode recuperar-se satisfatoriamente.

DrauzioNem sempre a demência tem relação com a arteriosclerose, aliás, na maior parte das vezes não tem relação nenhuma.
Ricardo Nitrini – Na maior parte das vezes, não tem. Portanto, esse conceito de esclerose como sinônimo de demência não tem fundamentação científica, é quase um termo popular.