Causas reversíveis da demência

Drauzio – Você
abordou a semelhança de sintomas nas síndromes depressivas
e nas demenciais. Outros problemas clínicos podem provocar
quadros difíceis de distinguir das demências?
Ricardo Nitrini – Existem quadros de demências
reversíveis com sintomas semelhantes aos da síndrome
demencial que, com tratamento específico, regridem e o paciente
volta ao normal. Diversos estudos demonstraram que, num universo de
cem pacientes, 10% seriam portadores de demências potencialmente
reversíveis, provocadas por fatores como mau funcionamento
da tireóide (quer hipertireoidismo, quer hipotireoidismo),
traumas de crânio, coágulos de sangue, hematomas ou por
carências nutricionais. No idoso, por exemplo, carência
da vitamina B12, fato que ocorre com alguma freqüência,
não só pode ser responsável pela síndrome
demencial como pode agravá-la. Se por acaso houver declínio
real da cognição e concomitantemente anemia, o desempenho
do paciente piorará muito.
Por isso, é muito importante considerar todas as demências
como potencialmente reversíveis. O médico tem a obrigação
de descartar as causas reversíveis da doença. No passado,
a mais comum era a sífilis. No Juqueri, sanatório psiquiátrico
de São Paulo, era enorme o número de pacientes internados
com quadros de demência provocada pela sífilis. Hoje,
esses casos são mais raros, especialmente se o diagnóstico
for feito precocemente.
Drauzio – Como os distúrbios da
tireóide - tanto o hipotireoidismo quanto o hipertireoidismo
– interferem com o funcionamento do cérebro?
Ricardo Nitrini – Seguramente os neurônios,
ou seja, as células nervosas, têm receptores para os
hormônios circulantes e isso acaba produzindo impacto importante
no funcionamento do sistema nervoso central. Entre as manifestações
do hipertireodismo, por exemplo, estão as mudanças de
humor e as crises de irritabilidade, sintomas que podem ocorrer também
nos casos de demência.