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A respiração Drauzio - A respiração é uma função fisiológica do organismo diferente das demais especialmente pelo tempo em que pode deixar de ser exercida. Dois ou três minutos sem respirar, e o organismo começa a dar sinais de graves alterações. Se esse tempo for um pouquinho maior, será incompatível com a vida. Por que essa necessidade do corpo de respirar tanto assim? Deheinzelin - Na verdade, a respiração traz embutida duas funções: uma é a oxigenação das células (o oxigênio passa do ar para o sangue a fim de alimentar todas as células do organismo); a outra é eliminar gás carbônico. É falsa a impressão de que essas funções são correlatas. Resultado da queima de todos os combustíveis necessários para o funcionamento da célula, o gás carbônico não pode permanecer no organismo. Caso isso aconteça, haverá intoxicação por CO2, a pessoa entrará em narcose e, não respirando em dois ou três minutos, poderá chegar ao coma. Drauzio - Como se sente uma pessoa num ambiente fechado, ao perceber que lhe falta oxigênio e corre o risco de morrer por asfixia? Deheinzelin - Ela entra em coma antes de morrer. No princípio, sente um desconforto imenso porque, à medida que o oxigênio se rarefaz, o esforço para respirar aumenta. É uma fase de muita agitação, durante a qual se busca retirar oxigênio de onde ele não mais existe. Depois, com a narcose, instala-se uma sonolência profunda e o coma. Isso acontece com clareza nos afogamentos. Quando submerge, a pessoa sabe que não pode respirar e prende o ar, mas o grau de torpor se aprofunda e ela volta a respirar, enchendo de água os pulmões. O que caracteriza o afogamento é a entrada de água nos pulmões, conseqüência desastrosa de um reflexo espontâneo e natural: o da respiração. Uma das últimas coisas que se perde, quando em coma profundo, é o ritmo e a capacidade de respirar, visto que preservar a troca gasosa é essencial para a vida. Até que a falta de oxigênio não é o pior. Embora a célula necessite de oxigênio para a combustão completa dos carboidratos, consegue realizá-la de forma anaeróbica durante algum tempo. É o que faz o corredor numa prova de 100m . Ele enche o pulmão e dispara. Naquele momento seu metabolismo é anaeróbico, ele não respira e o oxigênio não lhe faz falta. Agora, deixar de eliminar gás carbônico está fora de qualquer cogitação. Drauzio - Há pessoas que se queixam de que não sabem respirar direito. Isso é possível? Deheinzelin - Existem diferentes formas de respiração. Pode-se respirar envolvendo diferentes músculos e por diferentes vias. Pode-se respirar pela boca, pelo nariz, realizar respiração diafragmática, ou seja, usando os músculos do diafragma, ou respiração torácica, que demanda atividade da musculatura intercostal. Todas elas, porém,cumprem a mesma função. Drauzio - Enquanto se respira, existe a consciência de que músculos estão sendo usados? Deheinzelin - Respirar é um ato involuntário, inconsciente e não se toma conhecimento da musculatura envolvida nesse processo. Havendo esforço, a necessidade de respiração aumenta não só para manter a oxigenação adequada como para eliminar o gás carbônico que está sendo produzido em maior quantidade. Quanto mais se intensifica o esforço, mais músculos entram em ação para movimentar a caixa torácica. Em atividade normal, de 3% a 5% do oxigênio total absorvido são consumidos para manter a respiração. Num caso mais crítico de insuficiência respiratória, esse índice pode chegar a 20%, 25%. No início, é possível respirar com maior freqüência e encher mais os pulmões, mas depois a fadiga da musculatura impede que continuemos respirando. Essa é uma situação comum nos prontos-socorros. Apesar do enorme cansaço, o indivíduo chega respirando, mas não suporta o esforço, pára de respirar e morre. Drauzio - Há outras situações em que isso pode acontecer? Deheinzelin - Um indivíduo pode parar de respirar não por colapso da musculatura, e sim porque se intoxicou com barbitúricos, por exemplo. A função respiratória está preservada, mas desapareceu o comando cerebral que faz da respiração um ato obrigatório, mas involuntário e inconsciente. Drauzio - Não é uma coisa um pouco primária a natureza ter criado um mecanismo respiratório tão sofisticado e uma dependência de oxigênio tão básica que em dois ou três minutos já não se tem o oxigênio necessário à vida? Deheinzelin - Na verdade, o problema não é tanto a falta de oxigênio, é a retenção do gás carbônico que provoca acidose. Mais ácido, o sangue interfere em todas as células e reações orgânicas, porque o PH responsável pelo equilíbrio do corpo foi seriamente alterado. Uma pessoa suporta sem respirar em torno de três minutos. Mergulhadores especializados não vão muito além disso, e são mergulhadores de profundidade, bem treinados. |
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