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Daniel Deheinzelin é professor de Pneumologia da Faculdade de Medicina da USP e médico do Hospital do Câncer e do Hospital Sírio-Libanês.

Comprometimento da função pulmonar

Drauzio - Comparando garotas adolescentes com 16 anos, uma fumante há um ano, com outra não-fumante, as provas de função pulmonar das duas já apresentam alguma diferença?
Deheinzelin - Isso depende do método empregado. Nessa faixa etária, não se consegue detectar a diferença. No entanto, se compararmos exames realizados em várias épocas distintas, consegue-se facilmente identificar a que fuma, porque nela a perda da função pulmonar é maior. Seus pulmões envelhecem mais depressa do que os pulmões da não-fumante.

Drauzio - Como se reflete essa perda da função pulmonar no dia-a-dia do fumante?
Deheinzelin - A capacidade de fazer exercícios fica mais restrita. Aos 30 anos, um simples lance de escadas derruba o atleta de poucos anos atrás. E, como já dissemos, o problema não está só nos pulmões. Ele se torna hipertenso e sofre alterações cardiovasculares, pois o sistema funciona em uníssono. É impossível imaginar pulmão e coração funcionando como órgãos independentes. Aos poucos, a máquina toda passa a apresentar defeitos. Aí, ele argumenta, na vã tentativa de consolar-se: "Tenho 30 anos e ainda consigo jogar bola, uma vez por semana, com a turma da faculdade", mas é incapaz de imaginar como o faria se não fumasse.

Drauzio - Qual resposta você dá ao fumante que lhe pergunta quanto mal o cigarro já causou para seu organismo?
Deheinzelin - Essa pergunta é muito difícil de responder. Para ser exato, seria necessário repetir sistematicamente os testes de esforço para acompanhar a evolução do caso. Não existe um exame isolado que possibilite determinar a área lesada do pulmão. Na verdade, o interesse das pessoas resume-se no seguinte: saber o tamanho do estrago, porque sempre há a esperança de não ter havido estrago algum. Desse modo, a decisão de largar de fumar pode ser adiada para quando os sintomas da doença forem mais evidentes.

Drauzio - Existe, na cabeça de alguns fumantes, uma lógica que não é correta: "Fumo há 40 anos e o cigarro só danificou esse tanto. Para estragar o dobro, vai levar mais 40 anos. Daqui a 40 anos, estarei morto com certeza. Então, posso continuar fumando que não fará a menor diferença".
Deheinzelin - Faz muita diferença. Há um momento em que o estrago cresce de forma exponencial, não é mais somatório. Esse é um problema sério para as pessoas com 50, 60 anos que fumam desde a juventude e procuram o médico porque já apresentaram alguma manifestação da doença. Quando alertadas que a tendência é piorar se continuarem fumando, retrucam: "Ah! Mas eu já fumei 30 anos e só agora senti alguma coisa. Por que tenho de parar de fumar agora se, por certo, não viverei mais 30 anos?" Sinto dizer que essas contas nunca estão corretas. Às vezes, basta um ano para o quadro deteriorar irremediavelmente.