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Cocaína e Crack
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Características da crise de abstinência





Dr. Ronaldo Laranjeira é médico psiquiatra, coordenador do programa de pesquisas em álcool e outras drogas da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo.

Características da crise de abstinência

DrauzioEx-fumantes se queixam de que a vontade de fumar nunca passa. Usuários de cocaína que param de usar a droga não se referem a essa premência. Dizem que ficam bem sem ela, desde que não a vejam porque, se isso acontecer, enlouquecem. Cocaína não provoca uma crise de abstinência tão intensa quanto as outras drogas?
Ronaldo – Os sintomas de abstinência são peculiares a cada droga. O impacto do reflexo biológico da cocaína é diferente do da nicotina. O sintoma agudo da cocaína é o efeito que dá prazer imediato e a sensação de poder. Quando ele passa, o sintoma remoto da abstinência se caracteriza por diminuição desse prazer, um pouco de depressão e alienação.
Você se referiu a um aspecto importante da abstinência em sua pergunta. Estudos indicam que, quando o usuário vê cocaína, ou se encontra numa situação em que pode consegui-la, ou assiste a filmes que abordem o tema, várias regiões de seu cérebro quase que se iluminam, pois o impacto biológico é muito grande e aumenta a vontade de consumir a droga.
Isso tem implicação no tratamento. O cérebro de pessoas que se tornaram dependentes e estão tentando recuperar-se, reage de modo distinto diante da possibilidade de usar cocaína. Algumas ficam internadas seis meses em uma clínica e voltam para casa. A perspectiva de ter acesso à droga ou de encontrar um amigo que a consuma provoca uma reação biológica, um impacto cerebral diferente. Isso já foi demonstrado pelo petscan (um exame para analisar a atividade dos vários centros cerebrais) e essas pessoas precisam estar preparadas para enfrentar a inevitável vontade de usar cocaína, caso se vejam diante dessa possibilidade no futuro.

DrauzioAplicando o petscan é possível fazer o mapeamento do cérebro?
Ronaldo – Trata-se de técnicas que fazem não só uma fotografia simples do cérebro, mas uma fotografia que deixa ver seu funcionamento diante do estímulo visual da cocaína, já que algumas regiões se acendem como se ali houvesse uma luz vermelha e simultaneamente ocorre um pico de vontade para usar a droga.

DrauzioÉ por isso que a medicina classifica a dependência química de modo geral como doença?
Ronaldo – Atualmente a tendência é classificar a dependência como uma doença do cérebro. Embora seja uma doença multifatorial, existe um componente cerebral muito importante para ser abordado durante o tratamento. Achar que a pessoa é dependente porque é fraca, não tem força de vontade é minimizar o problema. Às vezes, ela não consegue lidar com o apetite exagerado pela cocaína por causa do impacto biológico que sofre.
Em síntese, a dependência é o desenvolvimento de um apetite específico sobre uma substância. No tratamento, a pessoa precisa aprender como domar esse desejo exacerbado. Por isso, é de extrema importância desenvolver medicações que diminuam esse apetite pelo uso da cocaína e façam com que a força de vontade e a pressão psicológica para suspender seu uso se manifestem de forma mais tranqüila.