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Cocaína e Crack
Ação da cocaína no cérebro
Vias de administração da cocaína
Duração do efeito
Destruição de neurônios
Paranóias
Características da crise de abstinência





Dr. Ronaldo Laranjeira é médico psiquiatra, coordenador do programa de pesquisas em álcool e outras drogas da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo.

Paranóias

DrauzioVocê poderia explicar como se estabelecem as paranóias associadas o uso de cocaína?
Ronaldo – Elas têm muito a ver com o sistema dopaminérgico. Doses maiores de dopamina provocam sintomas paranóides à semelhança do que ocorre com as anfetaminas, muito consumidas nos anos de 1950 para manter as pessoas acordadas. Pilotos de avião, por exemplo, que às vezes usavam essa droga para não dormir, tinham surtos psicóticos em pleno vôo.
De forma marcante, a cocaína produz sensações persecutórias provocadas pelo fluxo muito rápido de dopamina no cérebro. O usuário se tranca no banheiro, imaginado que a polícia vai invadir o local e prendê-lo. É quase um quadro semelhante ao da esquizofrenia paranóide. Dura algumas horas, eventualmente poucos dias e depois tende a desaparecer, mas é sinal indiscutível de que houve uma mudança importante da química cerebral.

DrauzioO que chama a atenção nesses casos é que a pessoa entra em paranóia e, passado o efeito da cocaína, diz – “Imagina, eu estou louco! A polícia não vai entrar aqui, está tudo fechado; aliás ninguém sabe sequer que estou aqui”. Aí, ele cheira de novo e tem a mesma sensação, tranca-se novamente no banheiro e tudo ocorre do mesmo modo outra vez.
Ronaldo – Na realidade, essa talvez seja a essência da dependência. Mesmo diante de conseqüências negativas, a pessoa não tem forças para mudar de comportamento porque o lado prazeroso e reforçador é muito mais importante e forte.

DrauzioMas ele não sente prazer, ao contrário, entra em pânico nesse momento.
Ronaldo – É uma sensação imediata, às vezes fugaz, mas existe uma alteração no sistema de recompensa cerebral, porque se não existisse, não seria possível explicar tal comportamento.
A conseqüência negativa de uma substância não impede que ela continue sendo usada mesmo no caso de o efeito paranóide ocorrer quase imediatamente após o uso. Ou seja, a pessoa valoriza essa etapa de efeito rápido mesmo que seja fugaz apesar de saber que irá enfrentar reações complicadas. Tive um paciente que se picava mais de 50 vezes até conseguir injetar a droga, mas dizia que a expectativa do prazer compensava, e muito, o desconforto das picadas. Esse é o aspecto mais impressionante