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Cocaína e Crack
Ação da cocaína no cérebro
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Características da crise de abstinência





Dr. Ronaldo Laranjeira é médico psiquiatra, coordenador do programa de pesquisas em álcool e outras drogas da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo.

Duração do efeito

DrauzioMeu primeiro contato com o crack foi através de um menino que dizia – eu fumei isso uma vez e fiquei horas curtindo o maior barato. Depois acabei tendo longa experiência com o crack na Casa de Detenção, em São Paulo. Para minha surpresa, vi que seu efeito durava segundos. O dependente acende uma pedra atrás da outra. Por que na primeira vez o efeito é duradouro, leva horas para desaparecer e depois acaba num segundo?
Ronaldo – A pessoa vai ficando tolerante aos efeitos da cocaína, fenômeno que acontece com todas as drogas. Na primeira vez, como o cérebro não está acostumado, o impacto de prazer é mais imediato e tende a durar mais. Com o passar do tempo, porém, há uma readaptação cerebral ao estímulo constante da droga. O cérebro vai se acostumando e são necessárias doses cada vez maiores para produzir o efeito que passa muito depressa. Na verdade, o cérebro procura sempre manter um certo equilíbrio e tenta readaptar-se após a exposição à droga o que, com a repetição do uso, torna o efeito mais rápido e passageiro, contribuindo assim para manutenção da dependência e o aparecimento dos danos causados pela cocaína.
Vale a pena salientar que existe o mito a ser desfeito de que a cocaína é um estimulante cerebral. Uma coisa é o efeito euforizante que ela dá - a pessoa se sente mais poderosa -, mas o metabolismo do cérebro cai muito com seu uso, pois diminui a quantidade de oxigênio em zonas importantes. O cérebro do usuário de cocaína é embotado, muito pobre em termos de estímulos. Atualmente, há recursos que permitem avaliar o funcionamento cerebral e deixam claro o enorme contraste existente entre o cérebro normal, rico e vivo que consome bastante glicose, por exemplo, e o do usuário de cocaína, que se mostra alterado substancial e principalmente nas regiões frontais, ou seja, nas regiões do pensamento, do controle dos estímulos e da impulsividade. Isso explica em parte o comportamento impulsivo dessas pessoas. Conhecer esse fato é importante para as famílias e para os clínicos, pois ajuda a entender por que elas não pensam muito, gastam dinheiro demais e muitas vezes se tornam violentas (parte da violência urbana está relacionada com o uso de cocaína). A pessoa que está cheirada e comete um crime é a que atira primeiro e por qualquer motivo, já que o funcionamento de seu cérebro está substancialmente alterado.