Experiência japonesa

Drauzio – A maior experiência
com câncer de estômago do mundo é a dos japoneses.
Como eles enfrentam o problema?
Rafael Possik – Por causa da alta freqüência
de câncer de estômago que há no Japão, a
detecção da doença é feita em massa. Um
ônibus equipado para o exame é enviado para tirar radiografia
do estômago das pessoas de determinada área e, se houver
qualquer dúvida ou suspeita, o portador é encaminhado
para a endoscopia.
Com isso, os japoneses conseguiram que mais de 50%, 60% dos cânceres
de estômago fossem diagnosticados na fase inicial, quando o
índice de cura é superior a 90%. Nos casos mais avançados
da doença, porém, os resultados são muito próximos
aos nossos.
Drauzio – A incidência de câncer
gástrico no Japão é muito alta. O curioso é
que o número de casos cai nos japoneses que emigraram para
os Estados Unidos, por exemplo, mas ainda permanece maior do que na
população americana. Isso sugere que haja realmente
um fator genético associado ao câncer de estômago
entre os japoneses, mas que a dieta também influi. Qual a relação
entre o aparecimento desses tumores e a dieta japonesa que muitos
consideram saudável?
Rafael Possik – Parece que os molhos usados
nos alimentos atuam como fator irritativo local e, somado à
predisposição genética dos japoneses, favoreceriam
o surgimento e o desenvolvimento do câncer gástrico.
Mas esse não é o único agravante. Saquê,
fumo, alimentos defumados e muito salgados, como os picles, também
são fatores predisponentes que não podem ser desconsiderados.
É lógico que nem todos os japoneses que ingerem peixe
salgado vão ter câncer de estômago, mas aqueles
que associarem o fator agressivo ao fator predisponente correrão
mais risco de contrair a doença.
Drauzio – O irônico é que
no Japão, comendo peixe cru, arroz e vegetais, as pessoas têm
mais câncer gástrico. Quando emigram para os Estados
Unidos e passam a comer fast food, têm menos câncer de
estômago, mas morrem mais por problemas cardíacos.
Rafael Possik – Fato semelhante ocorre com
as mulheres no Japão. Nelas, a menor incidência de câncer
de mama é atribuída aos hábitos alimentares das
japonesas.