Endoscopia digestiva

Drauzio – No passado,
quando não havia endoscopia, o diagnóstico de câncer
gástrico era feito quase sempre na fase avançada da
doença. Qual o impacto desse exame no diagnóstico do
câncer de estômago?
Rafael Possik – Não há dúvida
de que a endoscopia facilitou muito o diagnóstico, principalmente
na fase inicial da doença. Entretanto, apesar de terem surgido
a endoscopia, os raios X, o ultra-som e a tomografia, ainda acho que
o mais importante é conversar com o doente. Nessa conversa,
é possível levantar algumas características dos
sintomas que podem sugerir onde está localizada a lesão.
Por exemplo, se a dor aparece quando a pessoa se alimenta, é
sinal indicativo de lesão no estômago. Ao contrário,
se passa com a alimentação, sugere lesão duodenal.
O câncer gástrico segue esse mesmo padrão de dor.
No entanto, é raro o paciente com úlcera duodenal ter
câncer gástrico, principalmente por causa da hipercloridremia,
ou seja, o aumento de ácido clorídrico atua como fator
de proteção.
Drauzio –Vamos repetir esse conceito. Dor
que obedece ao ritmo dói-come-passa, em geral, é duodenal
e não tem relação com o câncer gástrico.
Já o ritmo come-dói indica dor gástrica que pode
estar ligada ao câncer de estômago, embora possa ser provocada
por outras enfermidades que não o tumor de estômago.
Rafael Possik – Exatamente. A dor que aparece
quando a pessoa se alimenta só indica alterações
gástricas e não quer dizer que haja um câncer
no estômago.
Drauzio – Voltando ao impacto que a endoscopia
provocou nos casos de câncer gástrico, você poderia
especificar qual foi o mais importante?
Rafael Possik – Acho que a maior conquista
que a endoscopia proporcionou foi o diagnóstico em fase inicial
da doença. Atualmente, embora seja raro esse tipo de intervenção,
lesão muito pequena (menor do que 2cm) e bem definida, se não
for um tumor agressivo, pode até ser tratada por via endoscópica.
A endoscopia é um exame fundamental, porque além de
auxiliar no diagnóstico precoce, permite determinar o tipo
histológico da lesão o que torna possível adequar
melhor o tratamento e a conduta antes e depois da cirurgia, uma vez
que nem todos os cânceres de estômago são iguais,
têm a mesmas características.
De qualquer modo, o grande impacto da endoscopia ocorreu mesmo nos
casos iniciais, pois acima de 90% dos pacientes alcançam mais
de cinco anos de sobrevida quando o diagnóstico é precoce.
Nos casos avançados, os resultados continuam praticamente os
mesmos de 30 anos atrás.
Drauzio – Antes, os endoscópios
eram rígidos e o exame feito com o paciente acordado. Hoje,
a endoscopia evolui muito, mas ainda permanece o medo de fazer o exame.
Há motivo para isso?
Rafael Possik – Não há. A endoscopia
é um exame praticamente inócuo, feito com o paciente
sedado. A biópsia não dói e ele não sente
absolutamente nada. Não se recusar a fazer a endoscopia é
importante porque a chance de cura sobe para perto de 100%, quando
o diagnóstico de câncer de estômago é precoce.