Helicobacter pylorii

Drauzio – O suco gástrico
é tão ácido que, quando escapa do estômago,
provoca sensação de queimação. Mesmo assim,
a bactéria Helicobacter pylorii é capaz de sobreviver
nesse meio ácido e acomete 50%, 60% da população.
Qual é a relação entre essa bactéria e
o câncer de estômago, uma vez que a incidência de
tumores gástricos é proporcionalmente muito mais baixa?
Rafael Possik – Existem algumas alterações
focais na mucosa do estômago chamadas de metaplasias, que se
caracterizam por menor produção de ácido e que
favorecem a instalação e o crescimento dessa bactéria,
embora nem sempre sua presença seja fator agressivo e predisponente
para o câncer de estômago.
É importante destacar que o grau de acidez do suco gástrico
nos protege contra a ação de algumas outras bactérias
que possamos ingerir. No entanto, às vezes, por causa das crises
freqüentes de azia, o indivíduo recorre aos antiácidos,
ou seja, aos bloqueadores da produção de ácido
por tempo prolongado. Isso é perigoso, porque favorece a instalação
de bactérias que irão agredir ou o estômago ou
outros órgãos do organismo. Portanto, o tratamento com
antiácidos ou bloqueadores de ácido não deve
ser contínuo. Deve ser feito pelo tempo estabelecido pelo médico.
Drauzio – Quer dizer que o Helicobacter
pylorii se aproveita das metaplasias para instalar-se e reproduzir-se
com mais facilidade?
Rafael Possik – Exatamente. Depois que se instala,
o Helicobacter pylorii provoca alterações na
mucosa do estômago que lenta e progressivamente podem gerar
a transformação carcinomatosa.
Drauzio – Uma coisa curiosa é que
a presença de Helicobacter pylorii no estômago pode ser
descoberta acidentalmente, quando a pessoa faz uma endoscopia. Qual
é o conceito moderno que orienta o tratamento nesses casos?
Rafael Possik – Não existe consenso.
Pessoalmente, adoto a seguinte conduta: se a pessoa fez endoscopia
por causa de alguma queixa específica, trato a alteração
que provocou a queixa, geralmente uma gastrite, e o Helicobater
pylorii.